Causas e vias de disseminação da infecção
A inflamação purulenta do peritônio torna-se mais frequentemente uma complicação grave de outras patologias cirúrgicas. Em mais de 50% dos casos, o culpado é a apendicite aguda. A inflamação também é provocada por colecistite, hérnias estranguladas, pancreatite, úlceras perfuradas e perfuração de tumores do trato gastrintestinal.
A infecção pode penetrar na cavidade abdominal por várias vias:
- Transição direta: propagação por contato a partir de um órgão inflamado.
- Ruptura de órgão oco: em traumas (por exemplo, contusão fechada ou ferimento por arma branca) ou necrose da parede, há extravasamento de conteúdo rico em flora polimicrobiana.
- Translocação bacteriana: penetração de micróbios através da parede intestinal sem macroperfuração. Isso ocorre quando há distúrbio circulatório (trombose, obstrução intestinal).
- Inflamação asséptica: ação química (bile, iodo, álcool) ou desidratação do peritônio durante uma cirurgia prolongada. Contudo, sem a intervenção adequada, a flora bacteriana rapidamente se junta a ela, causando um processo purulento.
Estágios do curso clínico
O quadro clínico muda rapidamente à medida que a endotoxemia progride e os mecanismos compensatórios do organismo se esgotam.
- Estágio reativo (12–24 horas). O organismo luta ativamente. O paciente sente dor intensa, inicialmente localizada na fonte, mas que gradualmente toma todo o abdome. O pulso acelera até 120 bpm, a pressão arterial está elevada. Localmente: abdome retrátil ou que não participa da respiração, observa-se dor acentuada, sinal de Blumberg e rigidez muscular expressa.
- Estágio tóxico (24–48 horas). A intoxicação grave passa a primeiro plano. Desenvolve-se paresia do trato gastrintestinal: abdome distendido (meteorismo), ruídos peristálticos desaparecem. A dor e a tensão muscular atenuam-se paradoxalmente. O paciente está prostrado, pulso fraco, a pressão cai, inicia-se vômito frequente com conteúdo intestinal.
- Estágio terminal (mais de 48–72 horas). Desenvolve-se falência de múltiplos órgãos. É possível a ocorrência de psicose tóxica. Observa-se facies Hippocratica (fácies hipocrática): olhos fundos, pele com coloração cinza-terrosa, suor frio. Abdome drasticamente distendido, à ausculta — "silêncio tumular". A temperatura corporal cai, o pulso é filiforme, ocorre diminuição da produção de urina (oligúria).
Natureza do derrame e especificidade da flora
O exsudato pode ser seroso, purulento, fibrinoso, hemorrágico ou icoroso. Suas propriedades dependem fortemente da microflora:
- Escherichia coli (*E. coli*) estimula a deposição de fibrina, o que favorece a aderência das folhas peritoneais e a delimitação do foco.
- Estreptococo causa a produção de pus líquido com pouca fibrina, assumindo o processo rapidamente um caráter difuso sem formação de aderências.
- Microflora putrefativa (na gangrena de órgãos) produz um exsudato icoroso de cor cinza-suja com flocos de fibrina e odor fétido acentuado.
Fisiopatologia e tática cirúrgica
A paresia intestinal leva à estase do conteúdo, fermentação e putrefação. Ocorre aabertura do piloro: o conteúdo intestinal tóxico é regurgitado para o estômago, provocando vômitos copiosos. O metabolismo desloca-se para o catabolismo, formando-se hipoproteinemia grave e déficit de eletrólitos. Desenvolve-se desidratação celular e discrepância crítica entre o volume do leito vascular e o volume circulante.
O tratamento cirúrgico radical inclui a limpeza da cavidade peritoneal. Um dos métodos é a relaparotomia programada com confecção de laparostomia (costura de um zíper). Esse método de "abdome aberto" permite abrir regularmente a ferida, remover o pus e lavar a cavidade com antissépticos. Também se emprega a diálise peritoneal, posicionando o paciente na posição de Fowler (semisentada) para que o pus escoe para a pelve menor para uma drenagem adequada.
Para os estágios da peritonite, lembre-se da tríade "tensão — distensión — silêncio": no estágio reativo os músculos estão tensos (defesa), no tóxico o abdome se distende devido à paresia, e no terminal instala-se o "silêncio tumular".
Questões de aulas e exames
O que é o sinal de Blumberg e como ele é verificado?
Este é um sinal de irritação peritoneal. O médico pressiona suave e cuidadosamente a parede abdominal com a mão e, em seguida, retira a mão bruscamente. Se a dor aumentar drasticamente ao retirar a mão, o sinal é considerado positivo.
Por que no estágio tóxico a dor abdominal pode diminuir?
A dor e a tensão muscular de defesa atenuam-se temporariamente devido à intoxicação grave crescente e ao desenvolvimento de paresia intestinal profunda, enquanto o estado geral do paciente piora criticamente.
Por que ao paciente com peritonite é atribuída a posição de Fowler?
A posição semisentada com a extremidade da cabeça elevada é necessária para que o exsudato inflamatório, sob a ação da gravidade, escoe para as regiões inferiores da cavidade peritoneal, de onde é mais fácil evacuá-lo através dos drenos.
O que mais estudar sobre o tema
- Mecanismos de delimitação da inflamação e o papel da fibrina na formação de aderências
- Particularidades da síndrome dolorosa e o sinal do frênico em diferentes localizações
- Diagnóstico instrumental: níveis hidroaéreos de Kloiber e ar livre na radiografia
- Profundidade da lesão tecidual e risco de perfuração secundária de órgão
- Alterações sistêmicas dos órgãos internos no contexto de toxemia grave
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Outros tópicos da seção «CAPÍTULO 11. INFECÇÃO CIRÚRGICA (DOENÇAS PURULENTO-INFLAMATÓRIAS)»
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