Causas e mecanismo de desenvolvimento
A inflamação purulenta é provocada por diversas microlesões cutâneas, incluindo escoriações devidas a dermatoses pruriginosas. O enfraquecimento das defesas do organismo desempenha um papel fundamental. Os fatores predisponentes incluem avitaminoses, doenças cutâneas concomitantes e distúrbios metabólicos (especialmente o diabetes melito).
A patogênese da doença inclui várias etapas sequenciais:
- Formação de uma pústula purulenta primária.
- Penetração da microflora do folículo piloso mais profundamente na camada papilar da derme.
- Formação de um infiltrado inflamatório denso.
- Aparecimento de um foco de necrose no centro — o chamado núcleo necrótico.
- Acúmulo de massas purulentas ao redor do tecido necrosado.
- Eliminação do núcleo necrótico juntamente com o pus.
- Preenchimento do defeito resultante por tecido de granulação e posterior cicatrização.
Manifestações clínicas
A doença manifesta-se pelo aparecimento de uma pequena pústula ou enduração dolorosa na espessura da pele. Localizações típicas: parte posterior do pescoço, antebraços, dorso da mão, face e coxas. À medida que progride, somam-se sintomas de intoxicação sistêmica: mal-estar e febre. A intensidade da dor depende da localização: a dor é máxima onde a pele está firmemente aderida aos tecidos subjacentes (nuca, couro cabeludo, canal auditivo externo, dorso dos dedos).
Ao exame físico (Status localis), distinguem-se quatro estágios:
- Estágio inicial: pústula com zona de hiperemia ao redor (menos frequentemente, apenas uma enduração hiperemiada).
- Estágio de infiltração: forma-se um infiltrado cônico de cor vermelho-arroxeada com 0,5–1,5 cm de diâmetro e contornos indefinidos.
- Estágio de abscesso: no centro surge uma área de amolecimento ou pus sob uma crosta. Ao drenar o exsudato, visualiza-se um tecido esverdeado — o topo do núcleo.
- Estágio de resolução: após a eliminação do núcleo com pus e sangue, forma-se uma cavidade crateriforme, que cicatriza em 2–3 dias com a formação de uma cicatriz retrátil.
Evoluções e complicações graves
Em casos de evolução desfavorável ou drenagem deficiente de pus, pode ocorrer o desenvolvimento de um furúnculo abscedente. Nesse caso, o núcleo necrótico liquefaz-se completamente, formando-se um intumescimento esférico com sinal de flutuação, o que requer intervenção cirúrgica.
A infecção pode se espalhar pelos vasos linfáticos, causando linfangite (linhas vermelhas a partir do foco) e linfadenite (aumento dos linfonodos regionais). Nesses casos, a antibioticoterapia é obrigatória.
É extremamente perigoso o curso maligno do furúnculo na face (lábio superior, pálpebras, arcos superciliares). A infecção pode se propagar retrogradamente pelas veias faciais até a veia oftálmica e, daí, para o seio cavernoso. Isso leva a uma tromboflebite supurativa e a uma meningite purulenta potencialmente fatal. Na generalização da infecção, desenvolve-se sepsie (febre intermitente, calafrios intensos, delírio, palidez) com a formação de abcessos metastáticos nos órgãos internos (septicopiemia).
Princípios de tratamento
A conduta para o furúnculo não complicado é conservadora. É estritamente proibido espremer a lesão, raspar a pústula com lâmina ou aplicar compressas mornas.
No estágio de infiltração, a pele ao redor é tratada com solução de etanol a 70% ou álcool salicílico a 2%, aplicando-se terapia com ondas ultracurtas (UHF). Após a abertura do abscesso, utilizam-se curativos com enzimas proteolíticas ou solução hipertônica de cloreto de sódio, indicando-se irradiação UV. Quando o núcleo é eliminado, aplicam-se curativos com pomada na ferida (emulsão de clorafenicol, pomada de dioxometiltetraidropirimidina).
Atenção especial é dada aos furúnculos da face. O paciente necessita de hospitalização urgente em enfermaria cirúrgica, repouso absoluto no leito e antibioticoterapia sistêmica. A alimentação deve ser pastosa para limitar os movimentos mastigatórios. Nos casos recidivantes (furunculose), investiga-se diabetes melito e avitaminose, realizando-se também imunização com anatoxina estafilocócica.
A regra dos três NÃOS: o furúnculo NUNCA deve ser espremido, NUNCA deve ser raspado com lâmina e NUNCA deve receber compressas mornas.
Questões de aulas e exames
O que é o núcleo necrótico?
É uma área de tecido necrosado de coloração esverdeada que se forma no centro do infiltrado inflamatório e é eliminada junto com o pus no estágio de resolução.
Por que o furúnculo na face é considerado extremamente perigoso?
Devido ao risco de propagação retrógrada da infecção pelas veias faciais para o seio cavernoso, o que pode levar ao desenvolvimento de meningite purulenta grave.
Qual é a diferença entre furúnculo e furunculose?
O furúnculo é um foco inflamatório único, enquanto a furunculose caracteriza-se pelo aparecimento simultâneo ou sequencial de dois ou mais furúnculos no contexto de imunossupressão.
O que mais estudar sobre o tema
- Patogênese e estágios de formação do núcleo necrótico
- Diferenças na conduta terapêutica no furúnculo abscedente
- Mecanismo de desenvolvimento da meningite purulenta quando o foco está localizado na face
- Diagnóstico diferencial do furúnculo com outras doenças pustulosas da pele
- Princípios da imunização com anatoxina estafilocócica na furunculose
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