Etiologia e patogenia
O principal alicerce para o desenvolvimento do infarto é a aterosclerose coronariana. A causa direta em 95% a 97% das situações é a trombose. O mecanismo ocorre da seguinte forma: a capa fibrosa da placa aterosclerótica se rompe, o núcleo lipídico entra em contato com o sangue, o que desencadeia a ativação plaquetária e da cascata de coagulação. Como resultado, forma-se um trombo que oclui o lúmen vascular.
Com menor frequência, a necrose pode ser causada por espasmo arterial prolongado, embolia, dissecção da parede vascular ou anomalias de desenvolvimento. O aumento da demanda por oxigênio no contexto de estresse ou esforço físico desempenha apenas um papel secundário em comparação com a oclusão vascular.
Quadro clínico
Amanifestação mais frequente é a dor (status anginosus).
Principais características de uma crise anginosa típica no infarto:
- Tipo de dor: em aperto, constritiva, em "fachada".
- Localização: retroesternal.
- Duração: superior a 15–30 minutos (às vezes dura horas).
- Resposta aos medicamentos: ausência de efeito com a nitroglicerina, muitas vezes não cede nem mesmo com analgésicos narcóticos.
Além da dor clássica, historicamente destacam-se outras duas síndromes (classificação de Obraztsov-Strazhesko): choque cardiogênico (colapso vascular com cianose) e insuficiência cardíaca (apresentando-se com edema pulmonar). Também é possível a forma indololor, que ocorre com mais frequência em idosos, diabéticos e pacientes com insuficiência cardíaca crônica.
Diagnóstico laboratorial
Marcadores bioquímicos são utilizados para confirmar a necrose. Atualmente, utilizam-se parâmetros altamente específicos, abandonando os antigos (AST, ALT, LDH) devido à sua baixa especificidade.
- Troponinas (I e T): As proteínas mais precoces e sensíveis, específicas do coração. Começam a subir após 3–12 horas, atingem o pico entre 12–48 horas e permanecem no sangue de 5 a 14 dias.
- Fração MB da CK (CPK-MB): Mais específica para o miocárdio do que a CK total. Sobe em 3–6 horas, atinge o pico no final do primeiro dia e normaliza no 3º–4º dia.
- Mioglobina: Eleva-se precocemente, mas não é específica do músculo cardíaco.
Classificação e diagnóstico eletrocardiográfico
A abordagem moderna divide os infartos em dois grupos, o que influencia diretamente a conduta terapêutica (por exemplo, na indicação de trombolíticos).
- Infarto com onda Q (transmural / de grandes áreas):
- A necrose acomete toda a espessura da parede.
- No ECG, surge uma onda Q patológica (larga e profunda) e a onda R diminui.
- Possui estadiamento claro: hiperaguda (curva monofásica), aguda (surgimento de Q), subaguda (segmento ST na linha de base, onda T negativa) e cicatricial.
- Infarto sem onda Q (subendocárdico / intramural):
- A necrose não acomete a parede inteira.
- O complexo QRS não se altera (não há onda Q patológica).
- O principal achado ao ECG são as alterações do segmento ST e a formação de onda T negativa.
- Para o diagnóstico, é obrigatória a avaliação clínica e das enzimas séricas, uma vez que a presença isolada de onda T negativa é inespecífica.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais são as formas clínicas atípicas do infarto do miocárdio?
Dependendo da predominância de sintomas atípicos, existem as seguintes formas clínicas atípicas de infarto do miocárdio:
- Variante asmática — o quadro clínico assemelha-se a uma crise de asma brônquica ou insuficiência ventricular esquerda aguda.
- Variante abdominal (forma gastrálgica) — predominam sintomas gastrointestinais (dor em cólica no andar superior do abdome, vômitos, diarreia).
- Variante arritmogênica — o quadro clínico é dominado por arritmias cardíacas.
- Variante cerebrovascular (forma cerebral) — os sintomas neurológicos entram em primeiro plano.
- Forma paucisintomática (indololor) — caracteriza-se pela ausência completa de dor.
- Forma periférica — mencionada na classificação juntamente com outras manifestações atípicas.
Quais derivações do ECG refletem alterações na parede anterior do ventrículo esquerdo?
As alterações decorrentes do acometimento da parede anterior refletem-se nas seguintes derivações do ECG:
- Parede anterior e septo — derivações V1–V3.
- Parede anterior + parede lateral («anterior extenso») — derivações I, aVL e V1–V6.
Questões de aulas e exames
Por que os infartos ocorrem com mais frequência pela manhã?
Nas primeiras horas da manhã (das 6:00 às 12:00), ocorre um aumento fisiológico na atividade do sistema nervoso simpático, o que eleva o risco de infarto.
O que é o fenômeno da reciprocidade no ECG?
São alterações em espelho nas derivações que refletem a parede oposta à zona de necrose. Se nas derivações «diretas» se registra elevação do ST, nas recíprocas registra-se sua depressão.
Um ECG normal exclui a presença de infarto?
Não. Um ECG normal no momento da realização não garante a ausência de necrose, especialmente nos estágios iniciais ou quando a lesão se localiza em «zonas mudas».
O que mais estudar sobre o tema
- Diagnóstico topográfico do infarto (determinação da parede acometida pelas derivações do ECG)
- Remodelamento cardíaco pós-infarto e suas consequências
- Patogenia e tríade de sinais do choque cardiogênico
- Distúrbios do ritmo e da condução no infarto do miocárdio
- Uso de mapeamento eletrocardiográfico e cintilografia miocárdica em casos complexos
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