Mecanismo de ação e farmacocinética
Quanto à estrutura química, a gentamicina é um composto polar e hidrofílico: aminoaçúcares estão ligados por ligações glicosídicas a um álcool cíclico (aminociclitol). Na natureza, é produzida por actinobactérias do gênero Micromonospora (daí o sufixo "-micina").
O mecanismo de ação está associado à inibição da síntese proteica. O transporte do medicamento até o alvo (a subunidade ribossomal 30S) ocorre em duas etapas: difusão passiva através da parede celular e transporte ativo através da membrana citoplasmática.
Farmacocinética:
- O volume de distribuição médio ($V_d$) é de cerca de 15 L. Isso corresponde anatomicamente ao volume de líquido extracelular (a soma dos volumes do plasma sanguíneo e do líquido intersticial).
- Como substância hidrofílica, a gentamicina atravessa o endotélio capilar, mas não penetra nas membranas celulares. Por isso, não entra nas células e é absolutamente ineficaz em infecções intracelulares.
- Não atravessa a barreira hematoencefálica (BHE) e, portanto, não é utilizada no tratamento de meningites bacterianas.
- É eliminada pelos rins na forma inalterada. Em caso de insuficiência renal, ocorre cumulação (acúmulo) do medicamento, o que aumenta drasticamente o risco de efeito tóxico.
Efeitos farmacológicos e espetro
A gentamicina é um antibiótico potente, voltado para o combate a infecções graves.
- Apresenta alta eficácia contra bactérias Gram-negativas, principalmente a Pseudomonas aeruginosa (Pseudomonas aeruginosa).
- Eficaz no tratamento da tularemia.
- Diferença importante em relação à 1ª geração: praticamente não atua sobre as micobactérias da tuberculose (ao contrário da Streptomycin e da Kanamycin).
Indicações de uso
Uso sistêmico (intramuscular, intravenoso): Indicado para infecções graves causadas por bactérias Gram-negativas resistentes a outros antibióticos:
- Sepse e endocardite infecciosa.
- Pneumonias graves.
- Infecções abdominais e urogenitais complicadas.
- Brucelose (utilizada em combinação com medicamentos de primeira escolha — as tetraciclinas).
Uso tópico:
- Em cirurgia e dermatologia: tratamento de feridas de tecidos moles infectadas e queimaduras (uso cutâneo na forma de pomada a 0,1%).
- Em oftalmologia: infecções oculares bacterianas, como blefarite, ceratite, ceratoconjuntivite e iridociclite (utilizam-se colírio a 0,3% e pomada oftálmica a 0,1%).
Efeitos colaterais e contraindicações
Os efeitos colaterais da gentamicina podem se manifestar mesmo em doses terapêuticas e limitar seriamente seu uso, podendo levar à sua exclusão da prática clínica.
- O principal perigo, típico de todo o grupo dos aminoglicosídeos, é a ototoxicidade (perda auditiva).
- O risco de efeito tóxico aumenta muitas vezes em doenças sistêmicas dos órgãos excretores (insuficiência renal) devido à redução da taxa de eliminação e à cumulação.
- Patologias do sistema cardiovascular e dos pulmões podem causar distúrbios hemodinâmicos, o que distorce o padrão de distribuição do medicamento no organismo.
Interação com outros medicamentos
As paredes celulares de algumas bactérias (por exemplo, enterococos) são pouco permeáveis aos aminoglicosídeos em monoterapia. Nesses casos, utiliza-se a combinação com antibióticos $\beta$-lactâmicos.
Este é um exemplo clássico de sinergismo (potenciação):
- Os $\beta$-lactâmicos inibem a síntese da parede celular bacteriana.
- A permeabilidade da parede aumenta.
- Facilita-se o transporte da gentamicina para o interior da célula até os ribossomos.
Exemplos: na infecção por enterococos, a gentamicina é combinada com a benzilpenicilina; na infecção por Klebsiella, com penicilinas antipseudomonas.
Formas farmacêuticas e prescrição
O medicamento é produzido em várias formas para uso sistêmico e local. A dosagem para administração i.m. e i.v. é calculada com base no peso corporal: 0,0004 g/kg.
- Pó em frascos de 0,08 g.
- Solução em ampolas de 4% — 1–2 ml.
- Pomada oftálmica de 0,1% — 10–15 g.
- Colírio solução a 0,3% (no saco conjuntival, prescrevem-se 1–2 gotas).
- Pomada para uso cutâneo a 0,1%.
Exemplo de receita para solução em ampolas: Rp.: Sol. Gentamycini sulfatis 4% - 2 ml D.t.d. N. 10 in ampull. S. Por via intramuscular, 2 ml 2 vezes ao dia.
Exemplo de receita para colírio: Rp.: Sol. Gentamycini sulfatis 0,3% - 5 ml D.S. 1 a 2 gotas no saco conjuntival 3 vezes ao dia.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais efeitos colaterais específicos, além da ototoxicidade, a gentamicina causa?
Além da ototoxicidade, a gentamicina, como representante típica do grupo dos aminoglicosídeos, causa nefrotoxicidade e distúrbios da transmissão neuromuscular.
- Nefrotoxicidade — lesão tóxica grave dos rins, cujo risco aumenta significativamente ao combinar ou substituir um medicamento por outro dentro do grupo.
- Distúrbio da transmissão neuromuscular — complicação colateral específica que se manifesta clinicamente como um efeito curariforme.
Quais são as contraindicações absolutas para a prescrição de gentamicina?
As contraindicações absolutas para a prescrição de gentamicina incluem hipersensibilidade, doenças renais graves e patologias do órgão auditivo.
- Hipersensibilidade — é uma contraindicação absoluta geral para todos os grupos de medicamentos antibacterianos.
- Doenças renais — incluem insuficiência renal, nefrite, pielonefrite, nefrose, bem como nefropatia diabética, mesmo em suas manifestações iniciais.
- Doenças do órgão auditivo — destaca-se, em especial, a neurite do nervo auditivo.
Contra quais bactérias Gram-negativas específicas, além da Pseudomonas aeruginosa, a gentamicina é ativa?
Além da Pseudomonas aeruginosa, a gentamicina é eficaz na tularemia. Na infecção por Klebsiella, é utilizada em combinação com penicilinas antipseudomonas.
GENTamicina — Bactérias Gram-negativas, Pus (Pseudomonas aeruginosa), Surdez (ototoxicidade).
Questões de aulas e exames
Por que a gentamicina não é utilizada na meningite bacteriana?
O medicamento é um composto hidrofílico, distribui-se apenas no líquido extracelular e não atravessa a barreira hematoencefálica (BHE).
Qual é o sentido da combinação de gentamicina com penicilinas na infecção por enterococos?
Este é um exemplo de sinergismo (potenciação). As penicilinas alteram a síntese da parede celular bacteriana, aumentando sua permeabilidade e facilitando o transporte de gentamicina para os ribossomos no interior da célula.
Como a insuficiência renal afeta a farmacocinética da gentamicina?
O fármaco é excretado pelos rins na forma inalterada. Na patologia renal, ocorre acumulação (acúmulo) da substância no organismo, o que aumenta drasticamente o risco de ototoxicidade.
A gentamicina atua sobre as micobactérias da tuberculose?
Não. Ao contrário dos aminoglicosídeos de 1ª geração (estreptomicina, canamicina), a gentamicina praticamente não atua sobre o agente causador da tuberculose.
O que mais estudar sobre o tema
- Classificação dos aminoglicosídeos por gerações (I, II, III) e suas diferenças.
- Mecanismos de desenvolvimento de resistência bacteriana aos aminoglicosídeos.
- Características da farmacocinética dos antibióticos hidrofílicos e volume de distribuição.
- Característica comparativa da gentamicina, tobramicina e amicacina.
- Princípios da antibioticoterapia combinada: sinergismo, efeito aditivo e antagonismo.
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