Fases da evolução
Em termos globais, o período pós-operatório divide-se nas etapas precoce (até a alta hospitalar) e tardia (da alta até o desfecho). Fisiopatologicamente, distinguem-se três fases sucessivas:
- Fase catabólica (3 a 7 dias). Resposta defensiva ao estresse cirúrgico. O organismo mobiliza reservas plásticas e energéticas. Caracteriza-se pela predominância da degradação proteica (primeiramente sofrem as proteínas do fígado, do plasma e do trato gastrointestinal, e em seguida os músculos). O paciente apresenta-se lentificado ou agitado, observando-se taquicardia, respiração superficial e oligúria.
- Fase de reversão (4 a 6 dias). Período de transição que ocorre em casos sem complicações. Diminui a atividade do sistema simpatoadrenal, restabelece-se o equilíbrio hidroeletrolítico (o potássio é retido nas células). O paciente apresenta alívio da dor, normalização da temperatura, retorno do apetite e reinício da peristalse.
- Fase anabólica (2 a 5 semanas). Período de recuperação. Sob a ação do hormônio do crescimento (somatotrópico) e dos andrógenos, sintetizam-se ativamente proteínas, gorduras e glicogênio. Há restauração do peso corporal e das funções de todos os sistemas. A cicatrização definitiva pode durar de 3 a 6 meses.
Fisiopatologia do estresse cirúrgico
A intervenção cirúrgica desencadeia uma potente resposta neuroendócrina. O hipotálamo, a hipófise e o sistema nervoso simpático são ativados.
No sangue, a concentração de catecolaminas, glicocorticoides, aldosterona e ACTH aumenta drasticamente. Ao mesmo tempo, o nível de insulina cai, o que leva à hiperglicemia.
Cascata de alterações:
- A alteração neuro-humoral causa vasoespasmo.
- A microcirculação é comprometida, surgindo hipóxia tecidual.
- A glicólise aeróbica é substituída pela anaeróbica, desenvolvendo-se acidose metabólica.
- O líquido extravasa para os tecidos, o sangue torna-se mais viscoso e surge risco de estase. O miocárdio, o fígado e os rins são os primeiros a sofrer com essas alterações.
Monitorização e critérios de gravidade
Após intervenções complexas, os pacientes são transferidos para unidades de terapia intensiva (UTI). A avaliação baseia-se na busca por desvios críticos que exijam atendimento de urgência.
| Sistema | Sinais de alerta |
|---|---|
| Cardiovascular | FC > 120, PA $\le$ 80 ou $\ge$ 200 mmHg, PVC < 50 ou > 110 $cmH_2O$ |
| Respiratório | FR > 28 irpm, macicez à percussão, ausência de murmúrio vesicular |
| Excretor | Débito urinário < 10 mL/h (oligúria) ou anúria |
| TGI | Abdome em "tábua", ausência de peristalse > 3 dias, melena |
| Ferida | Hemorragia abundante, evisceração (saída de órgãos), secreção purulenta |
Fundamentos de terapia intensiva
As principais tarefas dos médicos nesse período são conter os desvios metabólicos, restabelecer a oferta de $O_2$ e suprir os gastos energéticos.
- Suporte nutricional: É extremamente importante para compensar a perda de proteínas (que pode chegar a 400 g em 10 dias). Dá-se preferência à nutrição enteral precoce.
- Analgesia: A analgesia adequada (incluindo a anestesia peridural) previne a estimulação simpática excessiva e permite que o paciente respire profundamente.
- Respiração e hemodinâmica: Oxigenoterapia, fisioterapia respiratória, infusão de soluções (por exemplo, dextrans) para a correção da microcirculação.
Para memorizar a sequência das fases do metabolismo, use o acrônimo Catabólica, Ordem reversa, Regressiva, Anabólica.
Questões de aulas e exames
Por que nas primeiras 24 horas após a cirurgia o paciente respira de forma rápida e superficial?
Isso está relacionado à dor na ferida operatória, à elevação do diafragma devido ao íleo paralítico e à limitação da sua mobilidade.
De onde o organismo obtém proteínas durante a fase catabólica?
Primeiramente ocorre a degradação rápida das proteínas do fígado, do plasma sanguíneo e do trato gastrointestinal, e somente depois a degradação lenta das proteínas da musculatura esquelética.
O que significa um balanço nitrogenado positivo na fase de reversão?
Isso significa que a quantidade de nitrogênio introduzida no organismo passa a ser maior do que a eliminada pela urina. Essa alteração indica o início da síntese proteica ativa.
O que mais estudar sobre o tema
- Mecanismo detalhado da regulação neuro-humoral do estresse cirúrgico
- Especificidades do metabolismo proteico em ressecções extensas do trato gastrointestinal
- Métodos de correção do equilíbrio hidroeletrolítico na UTI
- Sintomas de irritação peritoneal e diagnóstico diferencial de complicações
- Organização da nutrição enteral e parenteral em pacientes cirúrgicos
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