Sistemas vasculares intra-orgânicos e divisão segmentar
No tecido hepático, distinguem-se duas redes vasculares isoladas. A primeira delas é o sistema portal (sistema de Glisson). Ele une as ramificações da veia porta, da artéria hepática e das vias biliares. O trajeto desses elementos dentro do parênquima coincide relativamente, e os próprios feixes penetram no órgão a partir do hilo hepático.
A segunda rede é denominada sistema cava e é representada pelas veias hepáticas. É importante ressaltar que a direção desses vasos não coincide com o trajeto dos elementos do sistema portal.
A anatomia cirúrgica moderna baseia-se justamente na ramificação do sistema portal, pois esta é a abordagem mais fundamentada para intervenções operatórias. A classificação de Couinaud (1957) é universalmente aceita. De acordo com ela, o órgão é dividido em 2 lobos (direito e esquerdo), que compreendem 5 setores e 8 segmentos. Por segmento ou setor, entende-se uma área de tecido delimitada com fluxo sanguíneo, drenagem biliar e drenagem linfática independentes. Na espessura do parênquima, os segmentos estão agrupados radialmente ao redor do hilo hepático.
Leito arterial
A principal fonte de sangue arterial é a artéria hepática própria (a. hepatica propria). Ela é a continuação direta da artéria hepática comum (a. hepatica communis), que se origina do tronco celíaco (truncus celiacus).
O trajeto do vaso ocorre da seguinte maneira: a artéria hepática comum passa pela margem superior da cabeça do pâncreas até o ligamento hepatoduodenal (lig. hepatoduodenale). Ali, ela se divide em artéria gastroduodenal (a. gastroduodenalis) e artéria hepática própria. A a. hepatica propria sobe no interior do ligamento em direção ao hilo hepático. Topograficamente, ela se localiza anteriormente à veia porta e à esquerda do ducto hepático.
No hilo hepático, a artéria hepática própria (com comprimento de 0,5–3 cm) divide-se nas artérias lobares:
- Ramo esquerdo (a. hepatica lobaris sinistra): irriga os lobos esquerdo, quadrado e caudado. Tem comprimento de 2–3 cm e diâmetro de 2–3 mm.
- Ramo direito (a. hepatica lobaris dextra): maior que o esquerdo. Nutre o lobo direito e emite a artéria cística (a. cystica) para a vesícula biliar.
Às vezes, um terceiro ramo se origina do tronco, nutrindo o lobo quadrado. Na porção inicial, a a. hepatica propria também emite a artéria gástrica direita (a. gastrica dextra). Clinicamente relevante: a laqueadura do ramo lobar causa necrose da respectiva área hepática, o que é extremamente perigoso para a vida do paciente.
Sistema venoso
O leito venoso do fígado possui uma clara divisão entre influxo e efluxo:
- O influxo é garantido pelo sistema da veia porta, que coleta e traz o sangue proveniente dos órgãos da cavidade abdominal.
- O efluxo (sistema eferente) ocorre através das veias hepáticas (vv. hepaticae). Elas drenam o sangue diretamente para a veia cava inferior (v. cava inferior).
O número de veias hepáticas pode variar, mas, mais frequentemente, formam-se três troncos principais constantes: direito, esquerdo e médio. Elas desembocam na veia cava inferior logo abaixo do centro tendíneo do diafragma. A área de passagem da veia cava inferior através do parênquima e os pontos de desembocadura das veias hepáticas são denominados segundo hilo (cava) do fígado. Na zona de desembocadura das veias, a veia cava inferior forma uma dilatação ampular, o que gera um risco aumentado de lesão durante a dissecção cirúrgica.
Inervação e sistema linfático
A regulação nervosa do órgão é garantida pelo plexo hepático. Ele é formado por ramos dos nervos vagos (n. vagus), dos plexos celíaco e frênico inferior. Um papel especial é desempenhado pelos ramos do nervo frênico direito, que percorrem ao longo da veia cava inferior e penetram através do ligamento coronário. Eles são responsáveis pela inervação aferente (sensitiva) do fígado e da vesícula biliar. É exatamente por isso que, nas doenças da zona hepatobiliar, surge o sinal do frênico — irradiação de dor para a região supraclavicular direita.
O sistema linfático é representado por plexos intra e extra-orgânicos.
- A partir da superfície visceral, a linfa é coletada em troncos maiores que seguem ao longo da veia porta em direção aos linfonodos do omento menor.
- A partir da superfície diafragmática e das camadas profundas (ao redor das veias hepáticas), os vasos eferentes seguem junto com a veia cava inferior em direção aos linfonodos regionais acima do diafragma.
Uma parte dos vasos perfura o diafragma e desemboca diretamente no ducto torácico e nos linfonodos do mediastino posterior. Existem conexões entre os linfonodos hepáticos e celíacos, permitindo o fluxo linfático bidirecional. Embora não existam anastomoses diretas entre as vias linfáticas do fígado e do estômago, seus vasos eferentes drenam para linfonodos regionais comuns.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais segmentos específicos (por números) compõem os lobos esquerdo e direito do fígado segundo a classificação de Couinaud?
Os lobos esquerdo e direito do fígado compreendem os seguintes segmentos:
- Lobo esquerdo — inclui o segmento medial (IV) e os segmentos laterais (II, III).
- Lobo direito — inclui os segmentos posteriores (VI, VII).
Também se distingue o lobo caudado, correspondente ao segmento I. Não há informações no texto sobre o pertencimento dos demais segmentos (V, VIII) a lobos específicos.
Quais anastomoses portocavas se formam na região do fígado e órgãos adjacentes?
As fontes indicam as seguintes anastomoses portocavas:
- Anastomoses da parede abdominal anterior — conexão das veias da parede abdominal com a veia porta através das veias paraumbilicais (vv. paraumbilicales), que passam no ligamento redondo do fígado.
- Anastomoses na região esofagogástrica (cárdia) — as veias desta região participam da anastomose portocava.
- Anastomoses das veias do mediastino — o sistema venoso do mediastino possui anastomoses com o sistema da veia porta.
- Anastomose esplenorrenal — anastomose entre as veias renais e as veias do sistema portal; ela é utilizada na hipertensão portal.
Em quais grupos específicos de linfonodos regionais ocorre a drenagem linfática da superfície diafragmática do fígado?
A partir da superfície diafragmática do fígado, os vasos linfáticos seguem junto com a veia cava inferior e desembocam nos linfonodos regionais situados acima do diafragma. As fontes não especificam grupos mais precisos desses linfonodos.
Para os vasos do peritônio, da cápsula fibrosa e das camadas adjacentes do fígado, indica-se o trajeto através do diafragma em direção aos linfonodos regionais do mediastino; uma parte dos vasos desemboca diretamente no ducto torácico e nos linfonodos do mediastino posterior.
Sistema de Couinaud: DOIS-CINCO-OITO (2 lobos, 5 setores, 8 segmentos).
Questões de aulas e exames
Por que a divisão segmentar do fígado é baseada no sistema portal?
As ramificações da veia porta, da artéria hepática e dos ductos biliares (elementos do sistema portal) caminham juntas, formando zonas isoladas de suprimento sanguíneo e drenagem biliar. Isso permite que os cirurgiões realizem ressecções seguras de áreas específicas (segmentos).
Quais são os riscos de uma laqueadura acidental da artéria hepática lobar direita ou esquerda?
A laqueadura de qualquer ramo lobar da artéria hepática própria é um erro grosseiro, pois leva inevitavelmente à necrose da respectiva parte do parênquima hepático.
O que é o segundo hilo (cava) do fígado?
É a área de passagem da veia cava inferior através do tecido hepático e o local de desembocadura das veias hepáticas. Essa área localiza-se imediatamente abaixo do óstio no centro tendíneo do diafragma.
O que mais estudar sobre o tema
- Topografia dos elementos do ligamento hepatoduodenal
- Anatomia do forame omental e da bolsa omental
- Ramificação da artéria hepática comum e circulação colateral
- Aparelho suspensor do fígado (ligamento coronário) e sua relação com os vasos
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