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Farmacologia

Anticoagulantes e antiplaquetários: mecanismos, fármacos e monitoramento da terapia.

Redação WhiteCoat Pro11 de abril de 2026Atualizado em 19 de abril de 20264 min de leitura
Sumário · 10 seções
  1. 1. Hemostasia: bases fundamentais
  2. 2. Classificação dos anticoagulantes
  3. 3. Heparinas
  4. 4. Varfarina
  5. 5. DOACs (anticoagulantes orais diretos)
  6. 6. Antiplaquetários
  7. 7. Dupla antiagregação plaquetária (DAPT)
  8. 8. Complicações e manejo de sangramentos
  9. 9. Conduta perioperatória
  10. 10. FAQ

Em resumo. Os anticoagulantes inibem os fatores de coagulação plasmáticos — utilizados em tromboses venosas, fibrilação atrial, próteses valvulares. Os antiplaquetários inibem a agregação plaquetária — utilizados em aterrumbose (infarto agudo do miocárdio, AVC, DAC). Tríade moderna de anticoagulantes: heparinas, varfarina, DOACs (rivaroxabana, apixabana, dabigatrana).

1. Hemostasia: bases fundamentais

O sistema hemostático divide-se em primário (vascular-plaquetário) e secundário (plasmático, de coagulação). O primário é a formação do tampão plaquetário; o secundário é a estabilização por fibrina.

A cascata de coagulação plasmática compreende duas vias: extrínseca (fator VII, avaliada pelo TP/INR) e intrínseca (fatores XII, XI, IX, VIII, avaliados pelo TTPA), que convergem no fator X (via comum) → trombina → fibrina.

2. Classificação dos anticoagulantes

Diretos

  • Heparinas: não fracionada (HNF), de baixo peso molecular (HBPM — enoxaparina, nadroparina, dalteparina).
  • Inibidores diretos da trombina: dabigatrana (via oral), bivalirudina, argatrobana (via parenteral).
  • Inibidores diretos do fator Xa: rivaroxabana, apixabana, edoxabana (via oral); fondaparinux (via parenteral).

Indiretos (antagonistas da vitamina K)

  • Varfarina, acenocumarol.

3. Heparinas

Heparina não fracionada

  • Mecanismo: liga-se à antitrombina III → acelera a inativação da trombina (IIa) e do fator Xa (1:1).
  • Via de administração — infusão intravenosa, subcutânea.
  • Monitoramento — TTPA (meta 1,5–2,5 × o controle), em pacientes em ECMO — anti-Xa.
  • Indicações: síndrome coronariana aguda, TEP maciça, cirurgia de urgência, gravidez.
  • Efeitos adversos: sangramentos, HIT (trombocitopenia induzida por heparina), osteoporose no uso prolongado.
  • Antídoto: sulfato de protamina, 1 mg neutraliza 100 UI de heparina.

Heparinas de baixo peso molecular

  • Inibição preferencial do fator Xa (relação anti-Xa/anti-IIa de 3–4:1).
  • Administração subcutânea, sem necessidade de monitoramento laboratorial na maioria dos pacientes.
  • Risco mínimo de HIT e osteoporose.
  • Contraindicadas na DRC com TFGe < 30 (acúmulo).
  • Monitoramento na gravidez, obesidade e DRC — atividade anti-Xa.

4. Varfarina

  • Mecanismo: bloqueio da vitamina K epóxido redutase → prejuízo na γ-carboxilação dos fatores II, VII, IX, X, além das proteínas C e S.
  • Administração — via oral, início de ação em 48–72 h (necessário declínio do fator II de longa meia-vida), pico em 3–5 dias.
  • Monitoramento — INR (valores-alvo na tabela abaixo).
  • Metabolismo via CYP2C9 e VKORC1 — múltiplas interações medicamentosas e alimentares (alimentos ricos em vitamina K: vegetais folhosos verdes, fígado).
  • Indicações: FA não valvular, próteses valvulares (especialmente mecânicas), síndrome antifosfolípide, TEV recorrente em caso de falha dos DOACs.
  • Antídoto: vitamina K₁, em caso de sangramento grave — concentrado de complexo protrombínico de 4 fatores (KCentra).
IndicaçãoINR-alvo
FA, TEV, bioprótese valvular2,0–3,0
Prótese mecânica em posição aórtica2,5–3,5
Prótese mecânica em posição mitral2,5–3,5 (em válvulas bivalves — 2,0–3,0)
SAF com recorrência3,0–4,0

5. DOACs (anticoagulantes orais diretos)

FármacoAlvoEliminaçãoAntídoto
DabigatranaTrombina (IIa)80% renalIdarucizumabe
RivaroxabanaXa35% renal, 65% hepáticaAndexanet alfa
ApixabanaXa25% rinsAndexanet alfa
EdoxabanaXa50% rinsAndexanet alfa

Vantagens em relação à varfarina: sem monitoramento laboratorial, dose fixa, menos interações, menor risco de hemorragia intracraniana. Limitações: DRC (especialmente dabigatrana — TFG > 30 obrigatória), valvas mecânicas (contraindicadas), SAF com tripla positividade.

6. Antiplaquetários

Aspirina (AAS)

  • Inibição irreversível da COX-1 nas plaquetas → ↓ síntese de tromboxano A₂.
  • O efeito dura toda a vida útil da plaqueta (7 a 10 dias).
  • Doses: baixa (75–100 mg/dia) — antiplaquetária; alta — anti-inflamatória.

Inibidores de P2Y₁₂

FármacoReversibilidadeViaCaracterísticas
ClopidogrelIrreversívelPró-fármaco, ativado pela CYP2C19Polimorfismo → pacientes "não responsivos"
TicagrelorReversívelPrincípio ativoMais potente, possível dispneia
PrasugrelIrreversívelPró-fármacoContraindicado > 75 anos, AVC prévio

Inibidores da GPIIb/IIIa

Abciximabe, eptifibatida, tirofibana — IV, utilizados em ICP de alto risco, trombose de stent. Eficazes, mas aumentam o risco de sangramento.

7. Terapia antiplaquetária dupla (DAPT)

  • Após SCA — AAS + ticagrelor/prasugrel/clopidogrel por 12 meses.
  • Após ICP eletiva — AAS + clopidogrel por 6 meses (os prazos podem ser reduzidos em caso de alto risco hemorrágico).
  • Em caso de alto risco isquêmico — prolongamento da DAPT além de 12 meses.

8. Complicações e manejo de sangramentos

  • Avaliação da gravidade do sangramento (escores BARC, TIMI, GUSTO).
  • Interrupção da terapia antitrombótica em caso de sangramento ameaçador à vida.
  • Uso de antídotos específicos (ver tabelas acima).
  • Suporte transfusional (plasma fresco congelado, concentrados de fatores), antifibrinolíticos (ácido tranexâmico) em sangramentos cirúrgicos.
  • HIT — interrupção total da heparina, transição para inibidores diretos da trombina (argatrobana, fondaparinux).

9. Conduta perioperatória

  • AAS em baixa dose — geralmente não é suspenso na maioria das cirurgias.
  • Clopidogrel — suspender 5 dias antes de cirurgias maiores; em caso de stent, avaliação individualizada.
  • Varfarina — suspender 5 dias antes, controle de RNI < 1,5, "ponte" com HBPM em caso de alto risco trombótico (valvas mecânicas, TEV recente).
  • DOACs — suspender 24 a 48 h antes em caso de baixo risco hemorrágico, 48 a 72 h em caso de alto risco (depende também da TFG).

10. FAQ

Quando escolher DOAC ou varfarina?
DOACs são o padrão de primeira linha para FA não valvular e TEV. Varfarina para valvas mecânicas, SAF com tripla positividade, DRC terminal, onde os DOACs são contraindicados.

O que é HIT e quando suspeitar dela?
Trombocitopenia induzida por heparina — mediada por imunidade, as plaquetas caem entre o 4º e o 10º dia em > 50% do valor basal, com paradoxal ↑ do risco trombótico. Cálculo pelo escore de 4Ts.

O que fazer em caso de sangramento maciço em uso de varfarina?
Suspender a varfarina, vitamina K 5–10 mg IV, concentrado de complexo protrombínico de 4 fatores (50 UI/kg). Plasma fresco congelado na falta de concentrados.

É possível associar anticoagulante e antiplaquetário?
Temporariamente — sim (FA + SCA exigem terapia tripla, depois dupla). Decisão individualizada com avaliação de risco pelos escores HAS-BLED e CHA₂DS₂-VASc.

Para que serve o escore CHA₂DS₂-VASc?
Avaliação do risco de AVC na FA. ≥ 2 pontos em homens ou ≥ 3 em mulheres — indicação de anticoagulação contínua. Há uma calculadora online.

Veja também: TEP · Infarto do miocárdio · AVC · Anti-hipertensivos · CHA₂DS₂-VASc · HAS-BLED · Catálogo de farmacologia

O material tem caráter educacional e não substitui a consulta médica. Verifique esquemas de tratamento e dosagens com as diretrizes clínicas vigentes.

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