Sumário · 11 seções
Em resumo. Os analgésicos são divididos em não opioides (AINEs, paracetamol, metamizol) e opioides (fracos: tramadol, codeína; fortes: morfina, fentanila, oxicodona). A base para o tratamento da dor oncológica é a escala de 3 degraus da OMS. Para dor neuropática, a primeira linha inclui gabapentina, pregabalina, duloxetina e amitriptilina. A anestesia multimodal reduz as doses de opioides e os efeitos colaterais.
1. Classificação
| Classe | Exemplos | Mecanismo |
|---|---|---|
| Simples não narcóticos | Paracetamol, metamizol | Ação central, inibição da COX-3 (parcial), influência nas vias serotoninérgicas |
| AINEs | Ibuprofeno, diclofenaco, cetoprofeno, naproxeno, cetorolaco | Inibição da COX-1/COX-2 → ↓ prostaglandinas |
| COX-2 seletivos | Celecoxibe, etoricoxibe | Predominantemente COX-2 → menos efeitos colaterais gastrintestinais |
| Opioides fracos | Tramadol, codeína | Parciais agonistas μ + serotonina/noradrenalina |
| Opioides fortes | Morfina, fentanila, oxicodona, hidromorfona, buprenorfina | Agonistas μ plenos |
| Adjuvantes | Gabapentina, pregabalina, ADTs, IRSN, anestésicos locais, glicocorticoides | Ação sobre dor neuropática e inflamatória |
2. Escala analgésica da OMS (1986, atualizada em 2020)
- Degrau 1 (dor leve): paracetamol ± AINEs ± adjuvantes.
- Degrau 2 (moderada): opioides fracos (tramadol, codeína) + Degrau 1.
- Degrau 3 (forte): opioides fortes (morfina, fentanila, oxicodona) + Degrau 1 e adjuvantes.
Atualização de 2020: em caso de dor forte, pode-se ir direto para o degrau 3, e com a dor controlada após cirurgia, a descalagem é possível. O degrau 4 (métodos invasivos: neuroablação, infusões) não faz parte da escala clássica.
3. Paracetamol
- Analgésico e antitérmico; efeito anti-inflamatório fraco.
- Dose: 0,5–1 g a cada 4–6 h (máximo de 4 g/dia, em pacientes com DRC/hepatopatia — 2 g/dia).
- Efeitos colaterais: hepatotoxicidade (antídoto — N-acetilcisteína em caso de overdose).
- Seguro para o trato gastrintestinal e coração — início preferido em idosos e gestantes.
4. AINEs
Mecanismo
Bloqueio da COX → ↓ prostaglandinas → analgesia, anti-inflamatório, antitérmico.
Efeitos colaterais
- TGI: erosões, úlceras, perfuração, sangramento (risco ↑ em idosos, com H. pylori, anticoagulantes).
- Rins: nefropatia por AINE, LRA.
- Cardiovasculares: ↑ risco de IAM/AVC (especialmente diclofenaco e coxibes, exceto celecoxibe).
- «Asprina-induzida»: tríade de Samter (asma + pólipos nasais + intolerância a AINEs).
Tática
- Menor dose eficaz, curso curto.
- Gastroproteção com IBP na presença de fatores de risco gastrintestinais.
- Evitar em ICC, DRC (TFGe < 30), hipercalemia.
5. Opioides
Fracos
- Tramadol — agonista μ + inibidor da recaptação de serotonina/noradrenalina. Risco de síndrome serotoninérgica quando combinado com IRSIs.
- Codeína — pró-fármaco, metabolizada pelo CYP2D6 em morfina. 10% dos europeus são «metabolizadores lentos» (sem efeito), alguns são «ultrarrápidos» — risco de toxicidade. Em crianças < 12 anos e após amigdalectomia — contraindicado.
Fortes
- Morfina — o agonista μ pleno de referência. Biodisponibilidade oral de 30%. Doses: 5–10 mg IV, 10–30 mg via oral. Comprimidos de ação prolongada (MST Continus).
- Fentanila — 100 vezes mais potente que a morfina. Adesivos transdérmicos (TDS), formas transmucosas, IV sob ventilação mecânica.
- Oxicodona — via oral, de ação prolongada, boa biodisponibilidade.
- Hidromorfona, metadona, tapentadol — opções para rotação de opioides.
- Buprenorfina — agonista parcial, efeito teto; o adesivo transdérmico é conveniente para idosos.
Efeitos colaterais dos opioides
- Sedação, náusea, vômito.
- Constipação (não desenvolve tolerância — laxantes rotineiros).
- Depressão respiratória — revertida com naloxona.
- Prurido, retenção urinária.
- Hiperalgesia (aumento paradoxal da dor em altas doses).
- Tolerância e dependência física; risco de uso indevido em prescrição não controlada.
Doses equianalgésicas (conversão para morfina via oral)
| Fármaco | Coeficiente |
|---|---|
| Morfina VO | 1 |
| Morfina IV/SC | ×3 (ou seja, 10 mg IV = 30 mg VO) |
| Oxicodona VO | ×1,5 |
| Tramadol VO | ÷5 |
| Fentanil adesivo transdérmico 25 mcg/h | = 60 mg de morfina VO/dia |
| Buprenorfina adesivo transdérmico 35 mcg/h | = 60–80 mg de morfina VO/dia |
6. Adjuvantes para dor neuropática
- Gabapentina 900–3600 mg/dia, pregabalina 150–600 mg/dia — primeira linha.
- Amitriptilina 25–75 mg — tricíclico, eficaz na neuralgia pós-herpética e neuropatia diabética.
- Duloxetina 60–120 mg — IRSN, primeira linha para neuropatia diabética.
- Lidocaína a 5% em adesivo — neuropatia localizada.
- Capsaicina a 8% em adesivo — neuralgia pós-herpética.
7. Princípios da terapia da dor crônica
- Regular, com horários fixos, e não "se necessário".
- Multimodal — a combinação de fármacos de diferentes classes reduz as doses.
- Avaliação da dor pela escala NRS (0–10) e Wong-Baker em crianças.
- Dor irruptiva — 10–20% da dose diária de opioide em formulação de ação rápida.
- Prevenção de constipação e náusea.
- Rotação de opioides — em caso de tolerância ou efeitos adversos.
8. Cenários clínicos especiais
- Dor pós-operatória — multimodal (paracetamol + AINE + anestesia regional + opioide sob demanda); PCA (analgesia controlada pelo paciente).
- Dor oncológica — escada analgésica da OMS, opioides fortes sem limite de dose, rotação, adjuvantes, sedação paliativa.
- Idosos — "start low, go slow" (comece com dose baixa e vá devagar); preferência por paracetamol, adesivo transdérmico de buprenorfina.
- Gravidez — paracetamol é seguro; AINEs — apenas no 1º e 2º trimestres até 32 semanas; opioides — sob estrita indicação.
- Insuficiência renal — evitar morfina (acúmulo de M6G), preferir fentanil, metadona.
9. "Novidades" não opioides
- Metamizol — disponível na Rússia; o risco de agranulocitose limita o seu uso.
- Nefopam — analgésico não opioide de ação central.
- Canabinoides (nabiximols) — para náuseas induzidas por quimioterapia e neuropatia.
10. Sobredose aguda de opioides
- Tríade: miose + depressão respiratória + rebaixamento do nível de consciência.
- Naloxona 0,04–0,4 mg IV a cada 2–3 min até a restauração da respiração.
- Naloxona intranasal (Narcan) — para atendimento de primeiros socorros.
- Cuidado em pacientes dependentes de opioides: risco de síndrome de abstinência aguda.
11. FAQ
Por que a morfina em comprimidos é restrita na Federação Russa?
Controle estrito de analgésicos narcóticos; desde 2015, o procedimento de prescrição para pacientes oncológicos foi simplificado (receita com validade de 5 anos, o médico da atenção básica pode prescrever).
AINEs — por via parenteral ou oral?
A administração intramuscular não oferece vantagens na velocidade de início da analgesia, mas aumenta o risco de complicações. Prefere-se via oral ou retal.
Como escolher a primeira linha para neuropatia?
Diabética — duloxetina/pregabalina; pós-herpética — gabapentina/tricíclicos; trigeminal — carbamazepina; neuropatia central — pregabalina.
O que é analgesia multimodal?
A combinação de fármacos de diferentes classes (paracetamol + AINE + opioide + bloqueio regional) — abordagem "poupadora de opioides", recomendada pelos protocolos ERAS.
Quando utilizar o adesivo de fentanil?
Dor crônica estável, que necessite de opioide do degrau 3, com necessidade documentada de morfina > 60 mg/dia. Não indicado para dor aguda!
Veja também: Anestésicos locais · Glicocorticoides · Antidepressivos · Epilepsia · Catálogo de farmacologia