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Farmacologia

Anestésicos locais: classificação (ésteres e amidas), mecanismo de ação e toxicidade.

Redação WhiteCoat Pro11 de abril de 2026Atualizado em 16 de setembro de 20264 min de leitura
Sumário · 11 seções
  1. 1. Mecanismo de ação
  2. 2. Classificação
  3. 3. Características dos principais fármacos
  4. 4. Vias de administração
  5. 5. Aditivos adjuvantes
  6. 6. Toxicidade sistêmica (LAST)
  7. 7. Tratamento da LAST
  8. 8. Reações alérgicas
  9. 9. Metemoglobinemia
  10. 10. Particularidades em gestantes
  11. 11. FAQ

Em resumo. Os anestésicos locais (AL) bloqueiam os canais de Na⁺ dependentes de voltagem, impedindo a condução do impulso. São divididos em amidas (lidocaína, bupivacaína, ropivacaína, articaína) e ésteres (procaína, tetracaína, benzocaína). A duração e a toxicidade dependem da lipofilicidade e da ligação proteica. Doses máximas: lidocaína 4,5 mg/kg (com adrenalina — 7), bupivacaína 2 mg/kg. A toxicidade sistêmica (LAST) afeta o SNC (convulsões) e o sistema cardiovascular (arritmias, parada). O antídoto é a emulsão lipídica a 20% (Intralipid).

1. Mecanismo de ação

Os AL são bases fracas (pKa 7,6–9). Nos tecidos, existem em duas formas: não ionizada (lipofílica, atravessa a membrana) e ionizada (hidrofílica, liga-se ao canal de Na⁺). Bloqueiam o canal de Na⁺ a partir da face interna da membrana, preferencialmente nos estados aberto e inativado → ↓ velocidade de despolarização → bloqueio da condução do impulso.

Na acidose tecidual inflamada, a proporção da forma não ionizada diminui → redução da eficácia do AL na zona de infecção.

2. Classificação

ClasseFármacosMetabolismoCaracterísticas
ÉsteresProcaína (novocaína), tetracaína, benzocaína, clorprocaínaEsterases plasmáticas (pseudocolinesterase)Curta duração, alta incidência de alergia (ao PABA)
AmidasLidocaína, bupivacaína, ropivacaína, articaína, mepivacaína, prilocaínaCYP450 hepáticoLonga duração, alergia rara

3. Características dos principais fármacos

Lidocaína (xilocaína)

  • Amida, início de ação em 2–5 min, duração de 60–120 min.
  • Infiltração 0,5–1%; bloqueio regional 1–2%; peridural 1,5–2%; raquidiana a 5% não é utilizada (neurotoxicidade).
  • Dose máx.: 4,5 mg/kg sem adrenalina, 7 mg/kg com adrenalina.
  • Também atua como antiarrítmico (classe Ib).

Bupivacaína (marcaína)

  • Longa duração — 4–12 h.
  • Peridural, raquidiana, bloqueio de nervos periféricos.
  • Dose máx.: 2 mg/kg (máx. 175 mg por administração).
  • O mais cardiotóxico dos AL — relação "coração-cérebro" de 2:1 (enquanto a da lidocaína é 7:1). O isômero levogiro (levobupivacaína) é mais seguro.

Ropivacaína

  • Isômero S puro, menor cardiotoxicidade do que a bupivacaína.
  • Bloqueio diferencial: maior bloqueio sensorial, menor motor — útil para analgesia de parto.
  • Dose máx.: 3 mg/kg.

Articaína

  • Amida com cadeia lateral de éster (metabolismo mais rápido pelas esterases).
  • Alta difusão tecidual — popular na odontologia.
  • Dose máx.: 7 mg/kg.

Procaína (novocaína)

  • Éster, curta duração de 30–60 min.
  • Alto risco de alergia devido ao PABA.
  • Uso em declínio; obsoleto.

4. Vias de administração

  • Superficial (tópica): mucosas, pele — EMLA, tetracaína, lidocaína 2–5%.
  • Infiltração: administração camada por camada nos tecidos.
  • Troncular: bloqueio de tronco nervoso.
  • Regional: bloqueio de plexos (braquial, lombar), intercostal, paravertebral.
  • Raquidiana: intratecal no espaço subaracnoideo (bupivacaína hiperbárica).
  • Peridural: no espaço peridural, de forma contínua via cateter.
  • Regional intravenosa (bloqueio de Bier): exsanguinação + aplicação de garrote + injeção de lidocaína na veia.

5. Aditivos adjuvantes

  • Adrenalina 1:200.000 — vasoconstrição → ↑ duração, ↓ absorção sistêmica, ↑ dose máxima. Contraindicada em regiões "acrais" (dedos, orelha, nariz, pênis) devido ao risco de isquemia; dados modernos contestam essa restrição, mas tradicionalmente é evitada.
  • Bicarbonato de sódio — acelera o início da ação e reduz a dor à injeção (alcalinização).
  • Opioides (fentanil, morfina) — via peridural/raquidiana para potencializar a analgesia.
  • Clonidina, dexmedetomidina — agonistas α2, prolongam o bloqueio.

6. Toxicidade sistêmica (LAST)

Sinais

  • SNC (iniciais): gosto metálico, dormência na língua, zumbido, tontura, psicose → convulsões → rebaixamento do nível de consciência, coma.
  • CVS (tardios): hipotensão, bradicardia, alargamento do QRS, bloqueios AV, arritmias ventriculares, parada cardíaca.
  • A bupivacaína pode causar toxicidade cardiovascular (LAST) sem sintomas prévios no SNC.

Causas

  • Injeção intravascular (causa principal).
  • Exceder a dose máxima.
  • Absorção rápida (zonas altamente vascularizadas: intercostal > caudal > peridural > plexo braquial).

Prevenção

  • Aspiração antes de cada injeção.
  • Dose-teste com adrenalina (↑ FC/PA se administrada por via intravenosa).
  • Controle por ultrassom dos bloqueios.
  • Não exceder as doses máximas.

7. Tratamento da LAST

  1. Interromper a administração.
  2. Garantir vias aéreas permeáveis, oxigênio a 100 %.
  3. Controlar as convulsões: benzodiazepínicos (midazolam, diazepam).
  4. Hemodinâmica: epinefrina em pequenas doses (10–100 mcg); evitar vasopressina, betabloqueadores, lidocaína.
  5. Emulsão lipídica a 20 % (Intralipid): bolus de 1,5 ml/kg em 2–3 min, seguido de infusão de 0,25 ml/kg/min; repetir o bolus se a instabilidade persistir.
  6. Em caso de parada — ACLS padrão + ECMO como «ponte» para o metabolismo dos Anestésicos Locais (AL).

8. Reações alérgicas

  • Reações verdadeiras por IgE são raras (< 1 %), mais frequentemente associadas ao PABA nos ésteres.
  • Causa comum de «alergia» — taquicardia induzida por epinefrina, reações vasovagais, irritação por parabenos.
  • Em caso de alergia confirmada — trocar de classe (dos ésteres para as amidas).

9. Metemoglobinemia

  • Mais comum com prilocaína, benzocaína.
  • Quadro clínico: cianose, SpO₂ de 85–90 % sem resposta ao oxigênio.
  • Diagnóstico: co-oximetria.
  • Tratamento: azul de metileno 1–2 mg/kg IV.

10. Particularidades em gestantes

  • Redução da ligação proteica → ↑ fração livre → maior toxicidade.
  • A bupivacaína na gravidez é mais cardiotóxica — prefere-se ropivacaína ou levobupivacaína.
  • Raquianestesia — técnica preferencial para cesariana.

11. FAQ

Por que a lidocaína é menos eficaz em tecidos inflamados?
Baixo pH → menor proporção da forma não ionizada, que atravessa a membrana. A adição de bicarbonato e a injeção fora da zona de inflamação melhoram o efeito.

Qual é a diferença entre a raquianestesia e a peridural?
Raquianestesia — no espaço subaracnoideo, ~2 ml de AL, bloqueio em 3–5 min, duração de 2–4 h. Peridural — 15–20 ml, via cateter, de forma mais lenta, com duração controlável por mais tempo.

O uso de adrenalina em áreas acrais é sempre contraindicado?
Revisões sistemáticas mostram segurança quando usada com cuidado. O tabu tradicional está sendo reavaliado, mas na prática a cautela é mantida.

O que fazer em caso de suspeita de LAST?
Inicie imediatamente o ABC + emulsão lipídica. Não espere o quadro clínico completo — o tempo é crítico.

Por que a articaína é melhor do que a lidocaína na odontologia?
Alta lipofilicidade e metabolismo rápido → boa difusão no osso e curta exposição sistêmica. Na Rússia, é o principal AL na odontologia.

Veja também: Analgésicos · Antiarrítmicos · Relaxantes musculares · Catálogo de farmacologia · Escalas clínicas

O material tem caráter educacional e não substitui a consulta médica. Verifique esquemas de tratamento e dosagens com as diretrizes clínicas vigentes.

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