Sumário · 11 seções
Em poucas palavras. A peritonite é a inflamação do peritônio, levando à síndrome da resposta inflamatória sistêmica, sepse e disfunção de múltiplos órgãos. Primária — hematogênica (PBE na cirrose), secundária — decorrente de perfuração/inflamação de órgão (90% dos casos), terciária — persistente após cirurgia. Diagnóstico — quadro clínico (abdome em tábua, sinal de Blumberg), USG/TC, laparoscopia. Tratamento: cirurgia precoce (eliminação do foco, lavagem, drenagem) + antibióticos de largo espectro iniciais + terapia intensiva para sepse.
1. Definição e classificação
A peritonite é a inflamação do peritônio visceral e parietal, com o desenvolvimento de intoxicação endógena e disfunção de múltiplos órgãos. O peritônio possui uma área de 1,7–2 m² e uma enorme capacidade de absorção, o que torna a peritonite um «grande incêndio» no organismo.
Por etiologia
- Primária (espontânea) — infecção por via hematogênica ou linfática sem perfuração; em pacientes com cirrose hepática (PBE, 10–30%), síndrome nefrótica, em crianças.
- Secundária — 90% dos casos; resultado de perfuração de órgão oco, destruição (apendicite, colecistite, diverticulite, pancreatite), trauma, deiscência de anastomose.
- Terciária — persiste ou recidiva após o tratamento adequado da secundária; frequentemente com flora resistente e fungos, em pacientes debilitados.
Quanto à extensão
- Localizada delimitada (abscesso) ou não delimitada (1 área anatómica).
- Generalizada: difusa (2–5 áreas), generalizada (> 5).
Quanto à natureza do exsudato
- Seroso, fibrinoso, purulento, hemorrágico, biliar, fecal, urinário, químico (na pancreatite).
2. Fases da peritonite segundo K. S. Simonyan
| Fase | Prazo | Clínica |
|---|---|---|
| Reativa | 0–24 h | Dor local, rigidez muscular, sinais peritoneais; SIRS pouco expressiva |
| Tóxica | 24–72 h | Endotoxemia, íleo paralítico, taquicardia, hipotensão; «fácies hipocrática» |
| Terminal | > 72 h | Disfunção de múltiplos órgãos, choque séptico, «falsa melhora» abdominal |
3. Patogênese
Irritação microbiana ou química → exsudação e paresia dos vasos peritoneais → hipovolemia, hipoalbuminemia → absorção de endotoxinas e citocinas → SIRS → sepse → distúrbios da microcirculação, CIVD, disfunção de múltiplos órgãos. O íleo paralítico leva à translocação bacteriana e à absorção adicional de endotoxinas.
4. Quadro clínico
- Dor abdominal constante, agravada por movimentos e tosse.
- Náuseas, vômitos, boca seca.
- Retenção de fezes e gases (íleo paralítico).
- Taquicardia, taquipneia, hipotensão.
- Tensão da parede abdominal anterior («abdome em tábua»).
- Sinais peritoneais positivos: Blumberg, Voskresensky (da «camisa»), Kulenkampff.
- Atenuação/ausência de peristaltismo à ausculta.
5. Diagnóstico
- Hemograma completo — leucocitose com desvio à esquerda, ↑ PCR, ↑ procalcitonina.
- Bioquímica — eletrólitos, creatinina, lactato (> 2 mmol/L — indicador de hipoperfusão).
- Radiografia simples — ar livre sob o diafragma (perfuração).
- USG — líquido livre, abscessos.
- TC com contraste — padrão-ouro: foco de perfuração, abscessos, pneumoperitônio.
- Laparoscopia diagnóstica — em casos de quadro clínico incerto.
- Paracentese com análise do líquido ascítico — na suspeita de PBE (neutrófilos > 250/µL).
6. Índice de Peritonite de Mannheim (MPI)
Escala prognóstica, soma 8 fatores. Importante para a tomada de decisão sobre abdome aberto («open abdomen») e lavagens programadas.
- Idade > 50 anos — 5.
- Sexo feminino — 5.
- Falência orgânica — 7.
- Neoplasia maligna — 4.
- Duração > 24 h — 4.
- Origem no cólon — 4.
- Peritonite generalizada — 6.
- Exsudato: seropurulento — 0; turvo-putrefato — 6; fecal — 12.
Soma: < 21 pontos — letalidade de 0–10 %; 21–29 — 20–50 %; > 29 — > 50 %.
7. Diagnóstico diferencial
- Oclusão intestinal aguda.
- Infarto agudo do miocárdio com irradiação (forma abdominal).
- Cetoacidose diabética, insuficiência adrenal aguda.
- Pneumonia basal (sinais pleurais).
- Cólica renal, gravidez ectópica, apoplexia ovariana.
8. Tratamento
Preparo pré-operatório (2–4 h)
- Infusão de cristaloides 20–30 ml/kg, em caso de choque — vasopressores (norepinefrina).
- Terapia antibiótica empírica inicial na 1ª hora do diagnóstico (campanha de sepse).
- Correção de eletrólitos, EQU (equilíbrio ácido-base), hipoproteinemia.
- SNG, cateterismo vesical para controle do débito urinário.
Cirurgia
- Laparotomia (ou laparoscopia quando a fonte for adequada).
- Controle do foco: apendicectomia, rafia de perfuração, ressecção com anastomose ou ostomia.
- Toalete — lavagem da cavidade peritoneal com 6–10 l de soro fisiológico morno, remoção de fibrina.
- Drenagem de todos os compartimentos (subhepático, pelve, subdiafragmático).
- Se MPI > 26, peritonite fecal, instabilidade — «open abdomen» (abdome aberto), lavagens seriadas (programmed lavage).
Terapia antibiótica
- Comunitária não grave: ceftriaxona + metronidazol; ertapenem.
- Grave/nosocomial: piperacilina/tazobactam ou carbapenêmico + vancomicina se houver suspeita de MRSA.
- Duração — 4–7 dias após o controle do foco, conforme clínica/PCR/PCT.
- Terapia antifúngica — na peritonite terciária, terapia antibiótica prolongada.
9. Tratamento intensivo da sepse
- Protocolo «Surviving Sepsis»: 1ª hora — lactato, culturas, antibióticos, infusão; 3ª hora — repetição do lactato.
- Meta de PAM ≥ 65 mmHg, débito urinário > 0,5 ml/kg/h, queda do lactato.
- Vasopressores — norepinefrina (primeira linha), adição de vasopressina 0,03 UI/min.
- Hidrocortisona 200 mg/dia em choque refratário a vasopressores.
- Controle glicêmico de 7,8–10 mmol/l, profilaxia de úlceras de estresse, HBPM para profilaxia de TEV.
10. Complicações
- Sepse, choque séptico, LRA, SARA.
- Abscessos intra-abdominais (subdiafragmático, intercascal/interasa, pélvico).
- Fístulas intestinais, evisceração.
- TVP/TEP.
- Doença aderencial a longo prazo.
11. FAQ
Quando a peritonite é tratada sem cirurgia?
Apenas na primária (PBA): ceftriaxona + albumina. Nos demais casos — a cirurgia é obrigatória, os antibióticos isolados são ineficazes.
O que é «programmed relaparotomy»?
Reabordagens cirúrgicas programadas em 24–48 h em casos de peritonite grave (MPI > 26, foco fecal, instabilidade hemodinâmica). A alternativa é a relaparotomy on demand (sob demanda).
Quão rápido devem-se iniciar os antibióticos?
Na primeira hora a partir do diagnóstico de sepse/choque séptico — cada hora de atraso ↑ a letalidade em 7,6 %.
Por que o íleo pós-operatório se desenvolve?
Inflamação peritoneal, ativação simpática, distúrbios eletrolíticos. Profilaxia: nutrição enteral precoce, procinéticos, analgesia peridural.
Quais são os critérios para remoção dos drenos?
Débito seroso < 50 ml/dia, ausência de pus, normalização da temperatura e dos leucócitos — geralmente entre o 5º e o 7º dia.
Veja também: Abdome agudo · Apendicite · Doença litiásica biliar e colecistite · Antibióticos · Catálogo de cirurgia · Escalas clínicas