Sumário · 11 seções
Em poucas palavras. As clássicas «doenças exantemáticas da infância» são sarampo, rubéola, varicela, escarlatina, exantema súbito (roséola) e eritema infeccioso (parvovírus B19). A chave para o diagnóstico é a combinação de tipo de exantema + pródromo + sazonalidade/contato + sinais específicos (sinal de Koplik, língua em framboesa, face esbofetearia). A vacinação (tríplice viral, varicela) reduziu drasticamente a incidência, mas nos últimos anos houve surtos de sarampo devido à queda na cobertura vacinal.
1. Tabela comparativa
| Doença | Agente etiológico | Incubação | Pródromo | Tipo de exantema | Características |
|---|---|---|---|---|---|
| Sarampo | Morbillivirus | 9–14 dias | Catarro, conjuntivite, «3 C» (tosse, coriza, conjuntivite) | Maculopapular, progressivo (face → tronco → extremidades) | Manchas de Koplik, febre de 39–40 °C, hiperpigmentação residual |
| Rubéola | Rubella virus | 14–21 dias | Leve, 1–2 dias | Macular fina, rósea, não coalescente | Linfonodos suboccipitais e cervicais posteriores; na gestação — síndrome da rubéola congênita |
| Varicela | VZV | 10–21 dias | Febre no dia do aparecimento do exantema | Polimorfo: mácula → pápula → vesícula → crosta | Prurido, surtos sucessivos de lesões, acometimento de mucosas |
| Escarlatina | Streptococcus pyogenes (β-hemolítico do grupo A) | 1–7 dias | Febre, amigdalite, vômito | Pontilhado fino sobre base hiperêmica, pregas cutâneas (sinal de Pastia) | Língua em framboesa, triângulo de Filatov, descamação laminar |
| Roséola | HHV-6/7 | 5–15 dias | 3 dias de febre alta sem outros sintomas | Macular no 3º–4º dia, quando a febre cede | Crianças de 6–24 meses, frequentemente gatilho para convulsões febris |
| Parvovírus B19 | Parvovirus B19 | 4–14 dias | Brando | «Face esbofetearia» (slapped cheek), seguida de exantema reticular no tronco | Artrite em adultos, crise aplástica em hemoglobinopatias |
2. Sarampo
- Pródromo de 3–4 dias: febre de 39–40 °C, tosse, coriza, conjuntivite, fotofobia.
- No 2º–3º dia — manchas de Koplik na mucosa jugal na altura do 2º molar inferior (pontos brancos sobre base hiperêmica) — patognomônicas.
- No 4º–5º dia — exantema progressivo: face/atrás das orelhas → tronco → extremidades. Exantema maculopapular, coalescente.
- Desaparecimento a partir do 3º dia do exantema — pigmentação, descamação furfurácea fina.
- Complicações: pneumonia (principal causa de óbito), encefalite (1:1000), panencefalite esclerosante subaguda (PEES, rara, tardia).
- Diagnóstico — sorologia IgM por ELISA, quadro clínico; o sarampo é de notificação compulsória.
- Tratamento — sintomático + vitamina A 200.000 UI por 2 dias (OMS) — ↓ letalidade.
- Profilaxia — vacina tríplice viral aos 12 meses e aos 6 anos.
3. Rubéola
- Curso leve, febre baixa.
- Exantema maculopapular fino, róseo, inicia-se na face, dissemina-se para o tronco em 24 horas; dura 2–3 dias; não descama.
- Aumento dos linfonodos occipitais, cervicais posteriores e retroauriculares — característico.
- Artralgia, especialmente em adolescentes e mulheres.
- Rubéola congênita (CRS) em caso de infecção no 1º trimestre: catarata, cardiopatias congênitas (PCA, estenose pulmonar), surdez — tríade de Gregg.
- Profilaxia — MMR.
4. Varicela
- Agente etiológico — VZV (vírus varicela-zoster).
- Febre + exantema simultâneos; novas lesões em surtos durante 3–5 dias.
- Falso polimorfismo: na mesma área há máculas, pápulas, vesículas e crostas. Prurido intenso.
- Pode acometer mucosas (boca, genitais, conjuntivas).
- Complicações: superinfecção bacteriana (celulite estreptocócica), pneumonia (em adultos e imunocomprometidos), ataxia cerebelar, encefalite, síndrome de Reye pelo uso de aspirina.
- Após a infecção, o VZV permanece nos gânglios sensitivos → reativação = herpes-zoster.
- Tratamento: crianças < 12 anos — sintomático, aciclovir em casos graves ou grupos de risco. Adolescentes, adultos, imunodeficiência — aciclovir 20 mg/kg 4 vezes/dia (até 800 mg 5 vezes/dia).
- Profilaxia — vacina (disponível, não incluída no PNI nacional russo).
5. Escarlatina
- Streptococcus pyogenes beta-hemolítico do grupo A, toxina eritrogênica.
- Início agudo: febre alta, odinofagia, vômitos.
- Exantema pontilhado sobre fundo hiperêmico, mais denso nas dobras cutâneas (linhas de Pastia — linhas hemorrágicas nas fossas cubital e poplítea); face hiperêmica com triângulo nasolabial pálido de Filatov.
- «Língua em framboesa» por volta do 3º–5º dia (inicialmente saburrosa, depois vermelho-viva com papilas hipertrofiadas).
- Desquamação lamelar nas palmas das mãos e plantas dos pés a partir da 2ª semana.
- Complicações: febre reumática aguda (FRA), glomerulonefrite pós-estreptocócica, abscesso periamigdaliano, otite.
- Tratamento — penicilinas/amoxicilina por 10 dias; em caso de alergia — macrolídeos, cefalosporinas.
6. Exantema súbito (roséola)
- HHV-6, HHV-7. Crianças de 6 a 24 meses.
- Febre alta por 3–5 dias sem sintomas focais — causa frequente de convulsões febris.
- O exantema aparece com a defervescência (queda da febre): máculas róseas finas no tronco e pescoço.
- Tratamento sintomático, prognóstico favorável.
7. Eritema infeccioso
- Parvovírus B19.
- Clássica «face esbofeteada» — eritema brilhante nas bochechas, palidez perioral.
- Após alguns dias — exantema «reticular» (rendilhado) nos membros e tronco, pode recidivar com exposição solar e estresse.
- Em adultos — artralgia/artrite.
- Na gravidez (especialmente antes de 20 semanas) — risco de hidropsia fetal, óbito.
- Em anemias hemolíticas crônicas — crise aplásica (o parvovírus tem tropismo por eritroblastos).
8. Diagnóstico diferencial
- Urticária alérgica — lesões urticariformes, prurido, rápida evolução.
- Infecção meningocócica — exantema hemorrágico, estrelado, não desaparece à vitropressão (teste do copo). Internação urgente, ceftriaxone.
- Exantema enteroviral (doença mão-pé-boca) — vesículas nas palmas, plantas e boca.
- Reações toxicoalérgicas a medicamentos.
- Mononucleose infecciosa — exantema maculopapular após o uso de amoxicilina.
- Doença de Kawasaki — febre > 5 dias, exantema polimorfo, conjuntivite, fissuras labiais, língua em framboesa, linfadenopatia cervical, descquamación das pontas dos dedos; aneurismas coronarianos!
- Doença de Lyme — eritema migratório (em alvo/anel).
- Síndrome da pele scaldada estafilocócica (SSSS) / Síndrome do choque tóxico (SST).
9. Isolamento e quarentena
- Sarampo — isolamento até o 4º dia após o aparecimento do exantema; contactantes não vacinados — 21 dias.
- Rubéola — até 5 dias após o início do exantema; cautela especial com gestantes.
- Varicela — até a formação de crostas em todas as lesões (5º–7º dia após o último surto).
- Escarlatina — até 22 dias do início da doença (com antibioticoterapia — 7 dias).
10. Vacinação (Calendário Nacional de Imunização)
- Sarampo, rubéola, caxumba (MMR) — 12 meses e 6 anos.
- Por indicações epidemiológicas — adultos até 35 anos sem comprovação de vacinação.
- Varicela — recomendada, disponível fora do PNI básico (Varilrix).
- Profilaxia passiva (imunoglobulina) para gestantes e contactantes imunocomprometidos.
11. FAQ
Pode uma pessoa vacinada contrair sarampo?
Sim, mas é extremamente raro (1–2%), geralmente com apresentação clínica leve e atípica. O esquema de duas doses da MMR confere 97% de proteção.
Como diferenciar a varicela do impetigo contagioso?
O impetigo apresenta crostas amareladas monopulimorfas, geralmente na face, sem febre; a varicela apresenta polimorfismo em todo o corpo associado a febre.
Quando a internação é obrigatória?
Sarampo com pneumonia/encefalite, varicela em adultos e gestantes, escarlatina com complicações, qualquer exantema hemorrágico (suspeita de doença meningocócica).
A escarlatina é perigosa em adultos?
Ocorre com menor frequência, mas tende a apresentar evolução atípica e grave, com maior risco de febre reumática aguda.
É permitido infectar intencionalmente uma criança com varicela?
Não. A prática de festas de varicela («pox parties») não é recomendada: as complicações em crianças pequenas são imprevisíveis. A vacinação é a conduta preferível.
Veja também: Asma em pediatria · Aleitamento materno · Tuberculose · HIV · Catálogo de Pediatria