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As imunoglobulinas (anticorpos) são glicoproteínas produzidas por plasmócitos (linfócitos B maduros) em resposta à estimulação antigênica. As cinco classes de anticorpos (IgG, IgA, IgM, IgD, IgE) diferem em estrutura, função e relevância clínica. O conhecimento das imunoglobulinas é essencial para compreender a resposta imune, alergias, doenças autoimunes e o diagnóstico sorológico.
Estrutura geral das imunoglobulinas
Todos os anticorpos são compostos por 4 cadeias polipeptídicas: 2 pesadas (H) e 2 leves (L), unidas por ligações dissulfeto:
- Fragmento Fab (Fragment antigen-binding) — região variável, liga-se ao antígeno. Cada anticorpo possui 2 sítios de ligação
- Fragmento Fc (Fragment crystallizable) — região constante, determina a classe da Ig e as funções biológicas (ativação do complemento, ligação a receptores Fc, passagem placentária)
- Região de dobradiça — confere flexibilidade à molécula durante a ligação aos epítopos
As cadeias pesadas determinam a classe: γ (IgG), α (IgA), μ (IgM), δ (IgD), ε (IgE).
Cinco classes de imunoglobulinas: tabela comparativa
| Classe | % no soro | Estrutura | Principais funções | Onde predomina |
|---|---|---|---|---|
| IgG | 75-80 % | Monômero | Principal Ig da resposta secundária, opsonização, ativação do complemento (via clássica), neutralização de toxinas | Sangue, tecidos. A única que atravessa a placenta! |
| IgA | 10-15 % | Dímero (IgA secretor) | Proteção de mucosas, neutralização na superfície | Mucosas: trato gastrintestinal, trato respiratório, colostro, saliva, lágrimas |
| IgM | 5-10 % | Pentâmero | Resposta imune primária (primeira Ig na infecção), o mais potente ativador do complemento, isohemaglutininas (grupos sanguíneos) | Sangue (molécula grande — não penetra nos tecidos) |
| IgD | <1 % | Monômero | Receptor na superfície de linfócitos B ingênuos (BCR) | Membrana de células B |
| IgE | <0,01 % | Monômero | Reações alérgicas (hipersensibilidade do tipo I), defesa antiparasitária | Ligado a mastócitos e basófilos através de FcεRI |
IgG: o principal protetor
- 4 subclasses: IgG1 (65 %) > IgG2 (25 %) > IgG3 (7 %) > IgG4 (3 %)
- O único Ig que atravessa a placenta (via FcRn — receptor Fc neonatal) → imunidade passiva do recém-nascido nos primeiros 3-6 meses
- Opsonização (via receptores Fc de fagócitos) e ADCC (citotoxicidade celular mediada por anticorpos — células NK)
- Ativação do complemento pela via clássica (IgG1 e IgG3 são os melhores ativadores)
Resposta imune primária vs secundária
| Parâmetro | Resposta primária | Resposta secundária |
|---|---|---|
| Período latente | 7-10 dias | 1-3 dias |
| Primeiro Ig | IgM | IgG (troca rápida de classe) |
| Título de anticorpos | Baixo | Alto (100-1000 vezes) |
| Afinidade | Baixa | Alta (maturação de afinidade) |
| Células | B naive → plasmócitos | Células B de memória → plasmócitos |
É por isso que IgM (+) com IgG (−) = infecção aguda; IgM (−) com IgG (+) = infecção prévia ou vacinação.
IgE e alergia (hipersensibilidade do tipo I)
- Sensibilização: primeiro contato com o alérgeno → células B → IgE → IgE fixa-se aos mastócitos via FcεRI
- Contato repetido: o alérgeno liga-se de forma cruzada a 2 moléculas de IgE no mastócito → degranulação → histamina, leucotrienos, prostaglandinas
- Quadro clínico: urticária, rinite, broncoespasmo, anafilaxia
Aumento de IgE total: doenças atópicas (asma, eczema, rinite), helmintíases, aspergilose broncopulmonar alérgica.
Uso clínico
- Diagnóstico sorológico: determinação de IgM e IgG contra agentes patogênicos (infecções TORCH, hepatites, HIV)
- Imunoeletroforese: diagnóstico de mieloma múltiplo (paraproteína monoclonal — pico M)
- Deficiência de IgA: a imunodeficiência primária mais comum (1:500), frequentemente assintomática; risco de anafilaxia em transfusões de sangue contendo IgA
- Imunoglobulinas intravenosas (IGIV): terapia de doenças autoimunes (síndrome de Guillain-Barré, doença de Kawasaki, PTII)
Perguntas frequentes
Por que o IgM é um pentâmero e o IgG é um monômero?
IgM — a primeira resposta, produzida antes da maturação da afinidade. Sua baixa afinidade é compensada por 10 sítios de ligação (pentâmero) — alta avidez. O IgG aparece após a troca de classe e maturação da afinidade — cada molécula é altamente específica, por isso bastam 2 sítios de ligação. A estrutura pentamérica também torna o IgM o mais potente ativador do complemento.
Como o IgG atravessa a placenta?
Através do FcRn (receptor Fc neonatal) no sinciciotrofoblasto: o IgG se liga em pH 6,0 (nos endossomos), é transportado através da célula e liberado em pH 7,4 (no sangue fetal). Esse mecanismo é seletivo — IgM, IgA, IgE não passam devido à incompatibilidade com o FcRn. O IgG transplacentário protege o recém-nascido nos primeiros 3 a 6 meses.
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