Lesão tecidual específica
A passagem de carga elétrica diretamente pelo corpo causa quatro tipos interconectados de reações:
- Ação biológica: manifesta-se por irritação aguda do sistema nervoso e da musculatura. Surgem condições com risco de vida: espasmo das cordas vocais, insuficiência respiratória e fibrilação ventricular. Há uma liberação massiva de hormônios no sangue (especialmente catecolaminas), o que causa um pico na pressão arterial.
- Ação eletroquímica: íons carregados acumulam-se em diferentes polos. Próximo ao ânodo (+) forma-se necrose de coagulação, e próximo ao cátodo (-) — de liquefação. Também é possível a impregnação da pele com partículas microscópicas de metal do condutor.
- Ação térmica: a energia elétrica é transformada em energia térmica. Os tecidos com menor condutividade elétrica específica (pele, tecido ósseo) são os que mais aquecem. Ocorrem queimaduras graves, chegando à carbonização. Quanto maior a tensão, mais intenso é o aquecimento.
- Ação mecânica: é acompanhada por ruptura massiva e delameração dos tecidos devido à liberação instantânea de calor e energia mecânica. Em choques de alta tensão, a vítima pode ser arremessada a uma grande distância, podendo inclusive ocorrer amputação de membros.
Distúrbios hemodinâmicos sistêmicos
O sistema cardiovascular é o primeiro a sofrer. As alterações patológicas ocorrem tanto devido a trauma mecânico direto ou hipóxia, quanto como consequência do efeito cardiotóxico de altas concentrações de hormônios tireoidianos e catecolaminas.
As manifestações incluem:
- Taquicardia significativa e vários tipos de arritmias (de bradicardia a fibrilações).
- Queda acentuada nos débitos cardíaco e sistólico.
- Distúrbios globais da microcirculação e da hemodinâmica central.
- Hiperemia venosa sistêmica e estase sanguínea na rede capilar.
Ação inespecífica da corrente
Este tipo de lesão está associado à conversão de energia elétrica em fontes externas, ou seja, a corrente não passa diretamente pelo corpo humano. Estas incluem:
- Radiação luminosa: um flash potente de arco voltaico causa lesões oculares — eletroftalmia e queimaduras de córnea.
- Ação acústica e barométrica: o som e a onda de choque podem provocar ruptura das membranas timpânicas e trauma grave no aparelho auditivo.
- Lesões secundárias: queimaduras térmicas de roupas inflamadas, bem como traumas mecânicos decorrentes de quedas de altura (luxações, fraturas vertebrais por compressão).
Graus de gravidade da eletrotrauma
O quadro clínico depende em grande parte da resistência da pele. A pele seca atua como um dielétrico com resistência de até 2.000.000 Ohms. Quando umedecido, esse valor cai para 1000 Ohms ou menos, tornando o choque fatal.
Existem quatro graus de gravidade da eletrotrauma sistêmica:
- Grau I: contrações musculares convulsivas, paciente consciente.
- Grau II: convulsões musculares acompanhadas de perda de consciência.
- Grau III: perda profunda de consciência, associada a distúrbios graves da atividade cardíaca.
- Grau IV: ocorrência de morte clínica.
Nuance clínica: paradoxalmente, a formação de uma queimadura profunda com carbonização pode reduzir a gravidade da lesão sistêmica. Os tecidos secos carbonizados passam a atuar como isolantes, impedindo a penetração adicional da corrente no corpo.
Princípios de evacuação e atendimento especializado
A conduta para pacientes com eletroquemaduras depende do tempo previsto para a recuperação. Se a recuperação completa levar até 2–3 meses, as vítimas permanecem no local. Pacientes mais graves devem ser evacuados para instituições de saúde na retaguarda.
O atendimento médico especializado visa atingir vários objetivos:
- Combate à toxemia (envenenamento por produtos de degradação) e ao esgotamento por feridas.
- Fechamento plástico dos defeitos cutâneos formados.
- Tratamento de complicações secundárias precoces.
- Correção cirúrgica de defeitos estéticos, bem que deformidades cicatriciais e contraturas que limitem a mobilidade articular.
Para memorizar a ação eletroquímica, use a regra A-Coag, C-Liquef: no Ânodo ocorre necrose de Coagulação, e no Cátodo — Liquefação.
Questões de aulas e exames
Por que a pele úmida aumenta múltiplas vezes o risco de morte por choque elétrico?
A umidade reduz catastroficamente a resistência elétrica da pele de 2.000.000 Ohms para 1000 Ohms ou menos. Nessas condições, uma corrente que excede significativamente o limite letal de 0,1 A passa desimpedida pelo corpo.
Uma queimadura elétrica grave pode, paradoxalmente, salvar uma vida?
Sim, com a formação de uma escara densa e carbonização dos tecidos. Áreas mortas e carbonizadas possuem alta resistência e passam a funcionar como dielétrico, reduzindo a intensidade da lesão sistêmica nos órgãos internos.
Quais são os principais mecanismos de ocorrência de eletrotruma?
O trauma ocorre não apenas por toque direto em um fio desencapado, mas também sem contato direto: como resultado de ruptura por arco (ao se aproximar de uma linha de alta tensão) ou curto-circuito próximo a uma pessoa.
O que mais estudar sobre o tema
- Patogenese e características das lesões por eletricidade atmosférica (raio).
- Mecanismos do efeito cardiotóxico das catecolaminas no eletrotruma.
- Tática cirúrgica para a correção de deformidades cicatriciais e contraturas após eletroquemaduras.
- Causas do desenvolvimento de toxemia e esgotamento por feridas em queimaduras massivas.
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