Sumário · 10 seções
Em resumo. Os antifúngicos são classificados por alvo: polienos (anfotericina B) ligam-se ao ergosterol da membrana; azóis (fluconazol, itraconazol, voriconazol, posaconazol, isavuconazol) bloqueiam a síntese de ergosterol (14α-desmetilase); equinocandinas (caspofungina, micafungina, anidulafungina) inibem a 1,3-β-D-glucana sintase da parede celular; alilaminas (terbinafina) inibem a esqualeno epoxidase. Candidíase: equinocandina em casos graves; fluconazol — não complicada. Criptococose: anfotericina B + flucitosina → fluconazol. Aspergilose: voriconazol como primeira escolha, isavuconazol — alternativa.
1. Classificação por estrutura e alvo
| Classe | Alvo | Fármacos |
|---|---|---|
| Polienos | Ergosterol → poros na membrana | Anfotericina B (desoxicolato, lipossomal), nistatina |
| Azóis (triazóis/imidazóis) | 14α-desmetilase (CYP51) — síntese de ergosterol | Fluconazol, itraconazol, voriconazol, posaconazol, isavuconazol, cetoconazol |
| Equinocandinas | 1,3-β-D-glucana sintase da parede celular | Caspofungina, micafungina, anidulafungina, rezafungina |
| Alilaminas | Esqualeno epoxidase | Terbinafina, naftifina |
| Análogos de pirimidina | RNA/DNA fúngico | Flucitosina (5-FC) |
| Novos | Diversos | Ibrexafungerp, rezafungina, olorofim, fosmanogepix |
2. Anfotericina B
- Polieno, liga-se ao ergosterol → poros na membrana → lise.
- Espectro amplo: Candida, Cryptococcus, Aspergillus, Mucor, endêmicos (Histoplasma, Coccidioides, Blastomyces).
- Formulações: desoxicolato (barato, nefrotóxico), lipídicas (lipossomal AmBisome, complexo lipídico Abelcet) — ↓ nefrotoxicidade.
- Efeitos colaterais: nefrotoxicidade, hipocalemia, hipomagnesemia, reações infusionais (febre, calafrios), anemia.
- Pré-medicação: paracetamol, difenidramina, hidrocortisona; infusão salina de 500 mL antes e depois.
- Uso: meningite criptocócica, candidíase invasiva em gestantes, mucormicose.
3. Azóis
Fluconazol
- Espectro: Candida (exceto C. krusei, C. glabrata com resistência), Cryptococcus.
- Não atua contra Aspergillus, Mucor.
- Boa biodisponibilidade (90%), penetração no SNC e nos olhos.
- Doses: 400–800 mg/dia para micoses sistêmicas; 150 mg dose única para candidíase vaginal.
- Efeitos colaterais: hepatotoxicidade, prolongamento do intervalo QT, teratogenicidade.
Itraconazol
- Espectro: Aspergillus, Histoplasma, Blastomyces, dermatófitos.
- A biodisponibilidade depende do pH (cápsulas exigem estômago ácido), a solução é melhor.
- Monitoramento terapêutico de medicamentos (TDM) — meta > 1 mg/L.
- Contraindicado na ICC (efeito inotrópico negativo).
Voriconazol
- Droga de escolha para aspergilose invasiva.
- Espectro: Aspergillus, Candida (incluindo C. krusei), Scedosporium, Fusarium.
- Farmacocinética não linear; TDM obrigatório (meta de 2–5 mg/L).
- Efeitos colaterais: distúrbios visuais (fotopsias), hepatotoxicidade, fototoxicidade com ↑ risco de carcinoma espinocelular, periostite, alucinações.
- Polimorfismo do CYP2C19: metabolizadores rápidos requerem ↑ dose.
Posaconazol
- Espectro mais amplo: + Mucor.
- Indicações: profilaxia em neutropenia profunda (LMA, TMO), tratamento de mucormicose.
- Formulações: suspensão, comprimidos de liberação prolongada, IV.
- TDM: meta > 0,7 mg/L para profilaxia, > 1 mg/L para tratamento.
Isavuconazol
- Pró-fármaco (sulfato de isavuconazônio).
- Espectro: Aspergillus, Mucor, Candida.
- FC linear, posologia conveniente, não prolonga o QT (encurta-o).
- Alternativa ao voriconazol e anfotericina na mucormicose.
Características gerais dos azóis
- Metabolizados pelo citocromo P450; inibidores potentes do CYP3A4 → interações medicamentosas (varfarina, estatinas, tacrolimo, voriconazol com níveis aumentados ↑).
- Hepatotoxicidade — monitoramento de enzimas.
- Prolongamento do QT (exceto isavuconazol).
4. Equinocandinas
- Caspofungina, micafungina, anidulafungina, rezafungina.
- Inibem a 1,3-β-D-glucana sintase → ruptura da parede celular.
- Espectro: Candida (incluindo resistentes aos azóis), Aspergillus (apenas como terapia de resgate); ineficazes contra Cryptococcus, Mucor.
- Uso exclusivamente intravenoso, baixa penetração no SNC e no olho.
- Excelente perfil de segurança — medicamento de escolha para candidíase grave na UTI.
- Rezafungina — posologia de 1 vez por semana.
5. Alilaminas e outros
Terbinafina
- Inibem a esqualeno epoxidase → acúmulo de esqualeno tóxico.
- Principal indicação — dermatomicoses, onicomicose.
- Duração do tratamento para onicomicose: mãos 6 semanas, pés 12 semanas.
- Hepatotoxicidade, alterações no paladar.
Flucitosina (5-FC)
- Análogo da citosina, convertido em 5-fluorouracila (5-FU) na célula fúngica.
- Sempre em associação (desenvolvimento rápido de resistência).
- Esquema clássico para meningite criptococócica: anfotericina B + flucitosina → fluconazol.
- Hematotoxicidade — monitoramento do hemograma completo.
Tópicos
- Clotrimazol, miconazol, econazol, sertaconazol — candidíase vaginal, micoses cutâneas.
- Nistatina — mucosas (não absorvida por via oral).
- Ciclopirox, amorolfina — onicomicose.
6. Tratamento das principais micoses
Candidíase invasiva / candidemia
- Primeira linha — equinocandina.
- Descalonamento para fluconazol se o paciente estiver estável, houver sensibilidade e ausência de uso prévio de azóis.
- Remoção de cateter venoso central (CVC), exame oftalmológico, ecocardiograma.
- Duração: 14 dias a partir da primeira hemocultura negativa.
Aspergilose
- Primeira linha — voriconazol ou isavuconazol.
- Alternativa — anfotericina B lipossomal.
- Associação de voriconazol + equinocandina — em casos graves.
- Duração: mínimo de 6 a 12 semanas, até a resolução.
Criptococose
- Indução: anfotericina B lipossomal + flucitosina por 2 semanas.
- Consolidação: fluconazol 400–800 mg por 8 semanas.
- Manutenção: fluconazol 200 mg por ≥ 1 ano (em pacientes com HIV — até a recuperação de CD4 > 100 e supressão viral).
- Controle da pressão intracraniana — punções lombares seriadas.
Mucormicose
- Cirurgia agressiva + anfotericina B lipossomal (doses altas de 5–10 mg/kg).
- Alternativas / terapia de transição: posaconazol, isavuconazol.
- Correção dos fatores predisponentes: cetoacidose diabética (CAD), imunossupressão.
Pneumocistose (P. jirovecii)
- Sulfametoxazol-trimetoprima (não é antifúngico por classe, mas utilizado para esta micose) 15–20 mg/kg/dia calculado pela trimetoprima, por 21 dias.
- Alternativas: pentamidina, clindamicina + primaquina, atovaquona.
- Corticosteroides se PaO₂ < 70 mm Hg.
7. Profilaxia
- Posaconazol — em neutropenia profunda (LMA, SMD, TMO alogênico).
- Fluconazol — em TMO alogênico fase precoce, transplante hepático.
- Sulfametoxazol-trimetoprima — profilaxia de pneumocistose com CD4 < 200, imunossupressão.
8. Farmacogenética e monitoramento
- Voriconazol — TDM obrigatório (polimorfismo do CYP2C19).
- Suspensão de posaconazol — baixa biodisponibilidade, TDM.
- Itraconazol — farmacocinética variável, TDM.
- Função hepática — todos os azóis, terbinafina.
- Função renal, K⁺, Mg²⁺ — anfotericina B.
- Hemograma completo — flucitosina.
9. Interações medicamentosas
- Azóis ↑ nível: varfarina, estatinas (rabdomiólise!), tacrolimo, ciclosporina, sirolimo, benzodiazepínicos, metadona, vincristina.
- Rifampicina ↓ níveis de azóis.
- A combinação voriconazol + rifampicina, carbamazepina, fenobarbital é contraindicada.
10. FAQ
Por que o fluconazol não funciona contra Aspergillus?
Os fungos filamentosos possuem diferenças estruturais na CYP51 e bombas de efluxo que o fluconazol não consegue burlar. Para Aspergillus — voriconazol/isavuconazol/posaconazol.
Quando o TDM é necessário?
Voriconazol (sempre), suspensão de posaconazol, itraconazol, flucitosina. O objetivo é a eficácia e a prevenção da toxicidade.
Qual é a diferença entre caspofungina e micafungina?
Pequenas diferenças na posologia e no perfil de segurança associado; ambos são eficazes na candidíase invasiva. A anidulafungina não requer ajuste em caso de insuficiência hepática.
Por que o voriconazol não funciona na mucormicose?
Os fungos mucorales possuem uma 14α-desmetilase insensível ao voriconazol, mas são sensíveis ao posaconazol e ao isavuconazol.
É possível administrar azóis durante a gravidez?
O fluconazol em altas doses é teratogênico (categoria D); dose única de 150 mg é considerada segura. Itraconazol, voriconazol, posaconazol são contraindicados. Anfotericina B e equinocandinas são permitidos.
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