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Em poucas palavras. A glicólise é a via universal do catabolismo da glicose no citoplasma: 10 reações, das quais 3 são irreversíveis e reguladoras — hexoquinase/glicoquinase (1), fosfofrutoquinase-1 (3, principal ponto de controle), piruvato quinase (10). Saldo líquido: 1 glicose → 2 piruvato + 2 ATP + 2 NADH. Aeróbico: piruvato → PDH → acetil-CoA → ciclo de Krebs. Anaeróbico: piruvato → lactato (LDH, regeneração de NAD⁺). Clínica: deficiência de piruvato quinase (anemia hemolítica), efeito Warburg em tumores, diabetes e regulação via frutose-2,6-bisfosfato.
1. Localização e esquema geral
- Ocorre no citosol de todas as células.
- Entrada: glicose (6C) + 2 ATP + 2 NAD⁺ + 4 ADP + 2 Pi.
- Saída: 2 piruvato (3C) + 2 ATP (líquido) + 2 NADH + 2 H⁺ + 2 H₂O.
- Fases: preparatória (1–5, consome 2 ATP) e oxidativa (6–10, produz 4 ATP).
- A glicose entra através dos transportadores GLUT (1–5): GLUT2 no fígado e células β (independentes de insulina), GLUT4 no músculo e tecido adiposo (dependentes de insulina).
2. 10 reações da glicólise
| № | Reação | Enzima | Característica |
|---|---|---|---|
| 1 | Glicose → Glicose-6-P | Hexoquinase (HK) / glicoquinase | ATP; irreversível; HK inibida pelo produto |
| 2 | G6P → F6P | Fosfoglicose isomerase | Reversível |
| 3 | F6P → F1,6-BP | PFK-1 | ATP; irreversível; controle principal |
| 4 | F1,6-BP → DHAP + G3P | Aldolase | Divisão em 2 trioses |
| 5 | DHAP ↔ G3P | Triose fosfato isomerase | Equilíbrio rápido |
| 6 | G3P → 1,3-BPG | G3P desidrogenase | NAD⁺ → NADH; Pi; o arsênico inibe |
| 7 | 1,3-BPG → 3-PG | Fosfoglicerato quinase | +ATP (fosforilação a nível de substrato) |
| 8 | 3-PG → 2-PG | Fosfoglicerato mutase | Reversível |
| 9 | 2-PG → PEP | Enolase | O fluoreto inibe (tubos com NaF) |
| 10 | PEP → Piruvato | Piruvato quinase | +ATP; irreversível; regulação alostérica |
3. Principais enzimas reguladoras
Hexoquinase / glicoquinase
- HK — ubiquitária; alta afinidade (Km ~0,1 mmol/L), inibida pela G6P.
- Glicoquinase (HK IV) — fígado, células β: baixa afinidade (Km ~10 mmol/L), NÃO é inibida pela G6P, induzida pela insulina.
- Significado: com níveis altos de glicose, o fígado e as células β aumentam a captação (controle glicêmico).
PFK-1 (fosfofrutoquinase-1)
- Principal ponto regulatório da glicólise.
- Ativadores: AMP, Fru-2,6-BP (potente, resposta à insulina), ↓ ATP.
- Inibidores: ATP, citrato, ↓ pH (acidose lática).
- A frutose-2,6-bisfosfato é sintetizada pela PFK-2 (dupla função da PFK-2/F-2,6-BPase): no fígado, ↑ com o ↑ de insulina, ↓ com o glucagon (fosforilação pela PKA).
Piruvato quinase
- Isoformas: L (fígado/rins), M1 (músculos/cérebro), M2 (proliferação/tumores).
- É ativada pela F-1,6-BP (conexão direta feed-forward).
- Forma L: inativada por fosforilação (PKA, glucagon → ↓ da glicólise no fígado).
- A deficiência causa anemia hemolítica autossômica recessiva.
4. Balanço energético
- Gasto: 2 ATP (reações 1 e 3).
- Obtido: 4 ATP (2 × reações 7 e 10, fosforilação ao nível do substrato).
- Líquido: +2 ATP + 2 NADH + 2 piruvato.
- Se o NADH entra na mitocôndria através da lançadeira glicerol-fosfato — 2 FADH₂ → 3 ATP (total +5).
- Lançadeira malato-aspartato — 2 NADH na matriz → 5 ATP (total +7).
- Processamento oxidativo aeróbico completo de 1 glicose: 30–32 ATP.
5. Destino do piruvato
- Aeróbico: complexo piruvato desidrogenase (PDC) → acetil-CoA + NADH + CO₂ → ciclo do ácido cítrico.
- Anaeróbico: lactato desidrogenase (LDH) → lactato + NAD⁺ (regeneração da coenzima).
- Gliconeogenese: piruvato carboxilase → oxaloacetato → fosfoenolpiruvato (no fígado, córtex renal).
- Ciclo alanina-alanina: transaminação do piruvato → alanina (fígado → gliconeogenese).
- Ciclo de Cori: músculos → lactato → fígado → gliconeogenese → músculos.
6. Regulação hormonal
- Insulina: ativa a glicólise através do ↑ de FRU-2,6-BP, ↑ da expressão da glicoquinase e piruvato quinase; desfosforila a PK.
- Glucagon/adrenalina: inibem a glicólise no fígado através da fosforilação da PK (forma L) e ↓ de FRU-2,6-BP.
- Nos músculos — a adrenalina ativa a glicólise (através de AMP e Ca²⁺).
- Cortisol — estimula a gliconeogenese, inibe a glicólise nos tecidos periféricos.
7. Glicólise anaeróbica
- Em caso de escassez de O₂ ou mitocôndrias: piruvato → lactato via LDH.
- Importante: eritrócitos (sem mitocôndrias), músculos esqueléticos sob esforço intenso, tumores (efeito Warburg), cérebro em hipóxia.
- Ciclo de Cori: lactato → fígado → glicose → músculos; sustenta a função muscular às custas do fígado.
- Acidose lática: ↑ do lactato > 4 mmol/L em choque, sepse, intoxicação por metformina.
8. Efeito Warburg
- As células tumorais utilizam predominantemente a glicólise aeróbica (até lactato) mesmo na presença de O₂ adequado.
- Motivo: obtenção rápida de ATP, intermediários metabólicos para biossíntese, adaptação à hipóxia tumoral.
- Atores-chave: HIF-1α, mTOR, PI3K/Akt, c-Myc.
- Utilizado clinicamente na diagnósticos por PET (a ¹⁸F-FDG acumula-se no tumor).
9. Erros inatos do metabolismo
- Deficiência de piruvato quinase — anemia hemolítica (os eritrócitos não conseguem gerar ATP sem mitocôndrias).
- Deficiência de glicoquinase — MODY 2 (forma leve de DM, «hiperglicemia de jejum benigna»).
- Deficiência de aldolase A — anemia hemolítica + miopatia.
- Deficiência de fosfoglicerato quinase — ligada ao X; miopatia + sintomas no SNC.
- Deficiência de GAD desidrogenase — muito rara.
10. Inibidores da glicólise
- Iodoacetato — inibidor da GAD desidrogenase (alqula irreversivelmente o grupo SH).
- Arsênio (arseniato) — desacopla 1,3-BPG → 3-PG, bloqueia a formação de ATP no passo 7.
- Fluoreto — inibidor da enolase; utilizado em tubos com NaF para estabilizar a glicose no sangue.
- 2-desoxi-glicose — análogo da glicose, não metabolizado → bloqueia a hexoquinase (estudada em oncologia).
11. Relação com outras vias
- Via das pentoses-fosfato — desvio a partir da G6P, fornece NADPH e ribose-5-fosfato.
- Glicogenólise → G1P → G6P → glicólise.
- Gliconeogenese — via reversa (contorna os passos irreversíveis através de enzimas específicas).
- A frutose entra na glicólise via DHAP e GAP (no fígado — via frutoquinase e aldolase B; a deficiência desta última causa intolerância hereditária à frutose).
- Galactose — via via de Leloir → glicose-1-fosfato → G6P.
12. FAQ
Por que os eritrócitos utilizam apenas a glicólise?
Os eritrócitos maduros não têm mitocôndrias → impossibilidade de fosforilação oxidativa. Toda a energia — 2 ATP por molécula de glicose via glicólise + lactato.
O que é o desvio do 2,3-BPG nos eritrócitos?
Um desvio a partir do 1,3-BPG através da bisfosfoglicerato mutase → 2,3-BPG (regulador da afinidade da Hb pelo O₂, desvio da curva de dissociação). Ao custo da perda de 1 ATP (contorna a reação 7).
Por que a intoxicação alcoólica causa hipoglicemia?
O metabolismo do etanol consome NAD⁺ → acumulação de NADH no fígado → deslocamento do equilíbrio: piruvato → lactato, oxaloacetato → malato. Isto bloqueia a gliconeogenese durante o jejum prolongado associado ao consumo de álcool.
Como funciona a metformina?
Inibe o complexo I da cadeia respiratória → ↓ ATP → ↑ AMP → ativação da AMPK → ↓ da gliconeogenese, ↑ da glicólise, ↑ da sensibilidade à insulina. Risco adverso — acidose lática na DRC.
Por que na diabetes a glicólise está diminuída nos tecidos periféricos, mas aumentada no fígado — de forma aparentemente paradoxal?
Nos tecidos dependentes de insulina (músculos, tecido adiposo), não há GLUT4 na membrana → sem captação de glicose → glicólise ↓. No fígado (GLUT2 é independente de insulina), a glicose entra livremente, mas sem insulina há ↓ de F-2,6-BP → PFK-1 ↓ → gliconeogenese ativa → hiperglicemia.
Veja também: Ciclo de Krebs · Beta-oxidação · Gliconeogenese · Diabetes melito · Catálogo de bioquímica