Conteúdo · 12 seções
- 1. Anatomia geral
- 2. Artéria coronária direita (RCA)
- 3. Artéria coronária esquerda (LCA)
- 4. Tipos de suprimento sanguíneo coronariano
- 5. Veias coronárias
- 6. Zonas de irrigação — Associações no ECG
- 7. Fisiologia do fluxo sanguíneo coronariano
- 8. Aterosclerose e DAC
- 9. Anomalias das artérias coronárias
- 10. Métodos de imagem
- 11. Revascularização
- 12. FAQ
Em poucas palavras. Duas artérias coronárias principais originam-se dos seios da valva aórtica. A direita (RCA) irriga o ventrículo direito, a parte posterior do septo, os nós sinusal e AV (em 60%), a parede inferior do VE (no padrão dominante direito — 85%). A esquerda (LCA) divide-se em LAD (descendente anterior — parede anterior do VE, 2/3 anteriores do septo interventricular, ápice) e LCx (circunflexa — parede lateral do VE; no padrão dominante esquerdo — parede posterior). Localização do infarto no ECG: II/III/aVF — inferior (RCA), I/aVL/V5-6 — lateral (LCx), V1-4 — anterior (LAD), V7-9 — posterior.
1. Anatomia geral
- As artérias coronárias originam-se dos seios aórticos de Valsalva.
- Coronária direita (RCA) — a partir do seio direito.
- Coronária esquerda (LCA) — a partir do seio esquerdo; tronco curto (LM, left main) de 5 a 10 mm.
- O seio não coronariano (posterior) não emite ramos.
- O fluxo sanguíneo coronariano no miocárdio do VE ocorre predominantemente na diástole.
- O miocárdio extrai 75–80% de O₂ mesmo em repouso — o aumento da oferta só é possível através da vasodilatação coronariana.
2. Artéria coronária direita (RCA)
- Traça seu curso no sulco coronário (AV) direito.
- Ramos:
- — Artéria do cone arterial (para o cone do tronco pulmonar; em 50% possui óstio separado).
- — Artéria do nó sinusal (60%) ou originada da LCx (40%).
- — Artéria marginal aguda — para o ventrículo direito.
- — Artéria descendente posterior (PDA) — no padrão dominante direito.
- — Ramo posterolateral para o VE (no padrão dominante direito).
- — Artéria do nó AV — em 90% originada da RCA (através do *crux cordis*).
- Irriga: ventrículo direito, átrio direito, terço posterior do septo interventricular, nó sinusal (60%) e nó AV (90%).
3. Artéria coronária esquerda (LCA)
Tronco (LM)
- Curto (5–10 mm), do seio esquerdo até a bifurcação.
- Às vezes trifurcação com ramo intermédio (*ramus intermedius*).
- Estenose significativa de LM > 50% — indicação de CRM (ou ICP em casos especiais).
Artéria interventricular anterior (LAD)
- No sulco interventricular anterior, desde o LM até o ápice (às vezes contornando-o e passando para a face posterior).
- Ramos:
- — Artérias diagonais (D1, D2) — parede anterolateral do VE.
- — Ramos septais (S1 — calibroso) — 2/3 anteriores do septo interventricular + feixe de His e seus ramos.
- Irriga: parede anterior do VE, 2/3 anteriores do septo, ápice, parcialmente a parede lateral do VE.
- «Artéria da morte súbita» — oclusão proximal da LAD antes dos ramos septais.
Artéria circunflexa (LCx)
- No sulco coronário esquerdo.
- Ramos:
- — Marginais obtusas (OM1, OM2) — parede lateral do VE.
- — Ramo do nó sinusal (40%).
- — No padrão dominante esquerdo (7%) — PDA + ramos posterolaterais.
- Irriga: parede lateral do VE, átrio esquerdo, e no padrão dominante esquerdo — a região posteroinferior do VE.
4. Tipos de suprimento sanguíneo coronariano
- Dominância direita (85%): PDA e ramo posterolateral originados da RCA.
- Dominância esquerda (7–8%): PDA originada da LCx.
- Codominância (7–8%): PDA originada da RCA, ramo posterolateral originado da LCx.
- Determinado por qual artéria irriga a parede posteroinferior do VE.
5. Veias coronárias
- Veia magna do coração — ao longo da LAD → seio coronário.
- Veia média do coração — no sulco interventricular posterior.
- Veia parva do coração — junto à RCA.
- Veias anteriores do coração — desembocam diretamente no átrio direito.
- Veias de Thebesius — diretamente nas cavidades cardíacas (shunt fisiológico).
- O seio coronário abre-se no átrio direito (entre a VCI e o óstio AV).
6. Zonas de irrigação — Associações no ECG
| Derivações ECG | Zona | Artéria |
|---|---|---|
| V1–V2 | Septo | LAD (ramos septais) |
| V3–V4 | Parede anterior | LAD |
| V5–V6, I, aVL | Parede lateral | LCx, LAD (D1) |
| II, III, aVF | Parede inferior | RCA (85 %) ou LCx (dominância esquerda) |
| V7–V9 | Parede posterior | RCA / LCx |
| V3R–V4R | Ventrículo direito | RCA proximal |
7. Fisiologia do fluxo sanguíneo coronariano
- Fluxo de repouso 250 ml/min (5 % do débito cardíaco).
- No miocárdio do VE — quase exclusivamente diastólico (devido à alta pressão sistólica).
- Miocárdio do VD — sistólico-diastólico.
- Reserva coronariana — capacidade de aumentar o fluxo sanguíneo em 4 a 5 vezes durante o exercício.
- Regulação metabólica: adenosina (principal), NO, CO₂, H⁺.
- Neurogênica: simpática — vasodilação β2; parassimpática — fraca.
8. Aterosclerose e DAC
- Locais preferenciais para placas — segmentos proximais: LAD até a primeira diagonal, LCx até o primeiro OM, RCA proximal.
- A estenose torna-se hemodinamicamente significativa em > 70 % (angina sintomática) e > 50 % para o tronco da coronária esquerda (LM).
- Reserva de fluxo fracionada (FFR) < 0,80 — indicação de revascularização.
- iFR (instantaneous wave-free ratio) < 0,89 — alternativa à FFR sem adenosina.
9. Anomalias das artérias coronárias
- Origem alta, óstios separados da artéria do cone arterial.
- Origem do seio oposto (LCA do seio direito, RCA do esquerdo).
- Trajeto interarterial («interarterial course») — LCA entre a aorta e o tronco pulmonar — risco de morte súbita em jovens atletas.
- ALCAPA (origem da LCA a partir do tronco pulmonar) — forma infantil grave.
- Pontes miocárdicas («myocardial bridges») — trajeto tunelizado da artéria no miocárdio; frequentemente assintomático, às vezes isquemia.
- Fístulas coronarianas — comunicação com a câmara cardíaca ou artéria pulmonar.
10. Métodos de imagem
- Coronariografia — padrão-ouro invasivo; via de acesso radial ou femoral.
- Angiotomografia coronariana (CTCA) — avaliação não invasiva, alto valor preditivo negativo.
- Ultrassom intracoronariano (IVUS), tomografia de coerência óptica (OCT) — avaliação da placa, otimização do stent.
- Reserva de fluxo fracionada (FFR), iFR — avaliação funcional da estenose.
- Ressonância magnética cardíaca com contraste — realce tardio (cicatrizes de infarto), viabilidade miocárdica.
11. Revascularização
- ICP (implante de stent) — maioria dos casos de DAC; em estenose de LM, doença triarterial com SYNTAX baixo — comparável à cirurgia de revascularização miocárdica (CRM).
- CRM (ponte de safena/mamária) — doença triarterial, LM, pacientes com DM + multiarterial, FE reduzida.
- Enxertos: artéria torácica interna esquerda (LIMA) para a LAD — melhor resultado a longo prazo; artéria torácica interna direita, radial, veia safena magna.
12. FAQ
Por que a LAD é chamada de «widow maker»?
A oclusão proximal da LAD leva a um infarto extenso da parede anterior e do septo, frequentemente com choque cardiogênico e alta mortalidade.
Como determinar o tipo de dominância pela coronariografia?
Pela origem da PDA: se da RCA — tipo direito, da LCx — esquerdo, se ambas participam — codominante.
O que é o escore SYNTAX?
Avaliação da complexidade da lesão coronariana. < 22 — ICP preferível; 23–32 — escolha individual; > 32 — CRM é melhor.
Por que o ventrículo direito sofre menos com o infarto?
Menor massa muscular, fluxo sanguíneo sistólico-diastólico, mais colaterais. Infarto do VD — mais frequente na oclusão proximal da RCA.
O que é o fenômeno «slow-flow/no-reflow»?
Distúrbio da microcirculação após a abertura bem-sucedida da artéria (implante de stent): apesar da permeabilidade do tronco principal — o fluxo de contraste é retardado. Causas: embolização distal, edema, microtrombose. Tratamento — nitroprussida, adrenalina, verapamil intracoronariano.
Veja também: Infarto do miocárdio · Angina · ECG · Aorta · Catálogo de anatomia