Fisiologia da tosse e conduta terapêutica
A tosse é um reflexo protetor essencial que surge em resposta à irritação da mucosa das vias aéreas. Seu objetivo fisiológico é a remoção do agente irritante, seja ele o excesso de secreção das glândulas brônquicas (escarro) ou um corpo estranho.
Para compreender a farmacodinâmica dos fármacos, é importante conhecer a estrutura do arco reflexo:
- Via aferente (entrada do sinal): inicia-se nos receptores sensoriais. A partir da laringe, os impulsos seguem pelas fibras do nervo glossofaríngeo (n. glossopharyngeus) e, a partir dos brônquios, pelas fibras sensoriais do nervo vago (n. vagus).
- Centro integrador: o sinal chega ao bulbo raquidiano, onde ocorre a estimulação do centro do reflexo da tosse.
- Via eferente (saída do sinal): a partir do cérebro, os impulsos são direcionados por fibras motoras somáticas para a musculatura respiratória (diafragma e músculos intercostais). O resultado de sua contração abrupta é a expiração forçada.
A conduta farmacoterapêutica depende estritamente do quadro clínico:
- Tosse produtiva ("úmida"): acompanha doenças inflamatórias com hipersecreção (bronquite, traqueíte). Ela desempenha uma função protetora, drenando os brônquios e acelerando a recuperação. A supressão desse tipo de tosse é contraindicada; em vez disso, prescrevem-se expectorantes.
- Tosse improdutiva ("seca"): característica de pleurites, neoplasias e inflamações crônicas. A função protetora perdeu-se, e o sintoma apenas esgota o paciente e perturba o sono noturno. Nesses casos, é adequado o uso de antitussígenos.
Classificação dos medicamentos
De acordo com a localização e o mecanismo de ação, os antitussígenos dividem-se em dois grandes grupos:
- Fármacos de ação central (inibem o centro da tosse no cérebro):
- Com efeito narcótico: codeína, etilmorfina.
- Não narcóticos: glaucina, oxeladina.
- Fármacos de ação periférica (reduzem a sensibilidade dos receptores das vias aéreas):
- Representante: prenoxdiazina.
Fármacos de ação central
Antitussígenos narcóticos Incluem os alcaloides do ópio e seus derivados. Seu mecanismo de ação está relacionado à estimulação dos receptores opioides no bulbo raquidiano, o que leva à redução da excitabilidade do centro da tosse.
- Codeína (metilmorfina). Apresenta-se sob a forma de base ou fosfato. Possui marcada ação antitussígena e analgésica. Em doses terapêuticas, a depressão do centro respiratório é mínima (não há correlação direta entre a supressão da tosse e a depressão respiratória). Frequentemente integra formulações combinadas (comprimidos de Codelac, Terpincod, mistura de Bekhterev com infusão de adônis e brometo de sódio).
- Etilmorfina (dionina). Derivado semissintético da morfina. É prescrita por via oral para tosse seca e exaustiva.
Riscos: a estimulação dos receptores opioides nos sistemas mesolímbico e mesocortical induz euforia, o que acarreta elevado potencial narcotizante (risco de dependência). O uso sistemático causa constipação (prisão de ventre). A dispensação desses medicamentos é estritamente regulamentada.
Antitussígenos não narcóticos Eles também inibem diretamente o centro da tosse, mas não ativam o sistema opioidergico. Consequentemente, não causam dependência e afetam a respiração em menor grau.
- Glaucina (Glauvent). Alcaloide vegetal obtido de Glaucium flavum. É bem absorvido, com início de ação em 30 minutos e duração de cerca de 8 horas. Efeitos colaterais: queda da PA (hipotensão), tontura, náusea.
- Oxeladina (Tusuprex). Fármaco sintético com perfil semelhante ao da glaucina. É absorvida rápida e completamente, atingindo o pico de concentração sanguínea em 4–6 horas.
Fármacos de ação periférica
Estes fármacos atuam fora do SNC, agindo diretamente sobre as vias aéreas.
- Prenoxdiazina (Libexin). Possui um mecanismo triplo:
- Efeito anestésico local: reduz a sensibilidade dos receptores da mucosa brônquica, prevenindo o desencadeamento do reflexo.
- Efeito broncodilatador: provoca a dilatação dos brônquios.
- Efeito anti-inflamatório.
O fármaco não atua sobre o SNC, e a duração de seu efeito é de 3 a 4 horas. Devido à anestesia local, um efeito colateral específico é o entorpecimento da língua. Também podem ocorrer boca seca e diarreia.
Para memorizar os efeitos da prenoxdiazina, utilize a regra "MAP": Anestesia Local, Broncodilatação, Ação Anti-inflamatória. O efeito colateral é facilmente lembrado pelo mecanismo — a anestesia local causa entorpecimento da língua.
Questões de aulas e exames
Por que a codeína não deve ser prescrita na tosse produtiva?
Na tosse produtiva (úmida), é necessário eliminar o escarro. A supressão do reflexo com codeína levará à estase de secreção infectada nos brônquios, o que privará a tosse de sua função de drenagem protetora.
Qual é a principal vantagem da glaucina em relação à etilmorfina?
A glaucina é um fármaco não narcótico. Ela não ativa os receptores opioides, não causa euforia nem dependência medicamentosa e afeta o centro respiratório em menor grau.
Quais nervos compõem a via aferente do reflexo da tosse?
Os impulsos sensoriais provenientes da laringe são transmitidos pelas fibras do nervo glossofaríngeo, enquanto os dos brônquios seguem pelas fibras do nervo vago.
O que mais estudar sobre o tema
- Farmacocinética e metabolismo da codeína no organismo
- Associações medicamentosas com codeína (composição e sinergismo dos componentes)
- Mecanismos de desenvolvimento de dependência opioide pelo uso de antitussígenos centrais
- Estudo comparativo entre glaucina e oxeladina
- Expectorantes (como alternativa na tosse produtiva)
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