Patogênese e diagnóstico diferencial
A base do enzimodiagnóstico é a síndrome de reabsorção-necrose. A oclusão de um vaso que irriga o músculo cardíaco causa isquemia e a subsequente destruição dos cardiomiócitos. Como resultado, as membranas celulares perdem sua integridade e as enzimas entram na corrente sanguínea em avalanche, causando hiperenzimatemia.
Esta ferramenta laboratorial é criticamente importante quando um paciente apresenta dispneia e um quadro clínico suspeito de patologia coronariana aguda. A análise enzimática ajuda a realizar o diagnóstico diferencial entre um verdadeiro infarto do miocárdio e outras condições com risco de vida, como insuficiência cardíaca aguda, angina instável ou tromboembolismo pulmonar (TEP).
Valores de referência e algoritmo de cálculo
Para confirmar o diagnóstico, é necessário comparar os indicadores do paciente com os valores normais (de referência). Tradicionalmente, a atividade enzimática é expressa em unidades internacionais por litro (U/L).
Valores normais (limite superior):
- CK (Creatinoquinase): menor que 190 U/L.
- AST (Aspartato aminotransferase): menor que 47 U/L.
- LDH (Lactato desidrogenase): menor que 250 U/L.
Algoritmo de avaliação:
- Registro dos indicadores laboratoriais da atividade enzimática no paciente.
- Cálculo do fator de aumento pela fórmula: `Valor do paciente / Valor de referência`.
- Se os valores obtidos para CK e AST excederem significativamente o normal, o diagnóstico de infarto do miocárdio é confirmado.
Dinâmica da atividade enzimática por hora
Cada marcador possui sua própria cinética, permitindo o acompanhamento dos estágios de desenvolvimento da patologia. É costume dividir a dinâmica em três períodos principais após a oclusão:
1. Período precoce (12–24 horas):
- Às 12 horas, os índices já excedem o normal: a CK atinge 380 U/L, a AST 75 U/L e a LDH 500 U/L.
- Às 24 horas, observa-se o valor de pico máximo para a CK (570 U/L). A AST aumenta para 200 U/L e a LDH para 1000 U/L.
2. Período intermediário (48–72 horas):
- Com 48 horas, a CK começa a diminuir (380 U/L). Ao mesmo tempo, a AST e a LDH atingem seus máximos absolutos: 330 U/L e 2000 U/L, respectivamente.
- Às 72 horas, a atividade de todas as enzimas começa a diminuir gradualmente (CK — 285, AST — 190, LDH — 1750 U/L).
3. Período tardio (96–120 horas):
- Às 96 horas, a CK aproxima-se do limite superior da normalidade (200 U/L), a AST cai para 140 U/L e a LDH diminui para 1500 U/L.
- Às 120 horas, a CK retorna completamente ao normal (190 U/L) e a AST fica em 70 U/L. No entanto, a LDH ainda permanece extremamente alta (1250 U/L), excedendo significativamente o limite de 250 U/L.
Interpretação do perfil enzimático
Com base na cinética, constrói-se o perfil enzimático clássico do infarto do miocárdio:
- Creatinoquinase (CK): Caracteriza-se como um marcador de lesão precoce. A atividade aumenta muito rapidamente (já em 3-6 horas), atinge o pico mais rápido que todas as outras em 24 horas, após o que cai e normaliza relativamente rápido.
- Aspartato aminotransferase (AST): Marcador de velocidade intermediária. Começa a subir após 4-6 horas. Aumenta mais lentamente que a CK, e seu pico de atividade ocorre em 48 horas, seguido por um declínio gradual.
- Lactato desidrogenase (LDH): Marcador de detecção tardia e monitoramento prolongado. Aumenta por último (após 24-48 horas) e sobe mais lentamente que as outras. O pico em alguns casos coincide com o da AST (cerca de 48 horas), mas sua principal característica é que permanece elevada por mais tempo do que todos os outros marcadores.
Determinação do tempo de evolução do infarto
Uma combinação adequada de testes de CK, AST e LDH dá ao clínico a capacidade de determinar com precisão o tempo de evolução do evento ocorrido.
Uma alta concentração de CK indica inequivocamente um infarto do miocárdio "recente", ocorrido nas últimas 1 a 2 dias. Por outro lado, se a análise revelar um aumento isolado da LDH no contexto de valores normais de CK, isso indica fortemente um infarto prévio ocorrido há vários dias, uma vez que a fração precoce das enzimas já teve tempo de ser eliminada da corrente sanguínea.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais isoenzimas da creatinoquinase (CK) e da lactato desidrogenase (LDH) são específicas para o miocárdio?
As isoenzimas específicas do miocárdio são a isoforma MB da creatinoquinase e a isoenzima LDH1 da lactato desidrogenase.
- CK-MB — A fração MB (Muscle-Brain) é específica para o miocárdio. No infarto do miocárdio, ocorre um aumento do seu nível no plasma sanguíneo.
- LDH1 — A isoforma cardíaca, composta por 4 subunidades do tipo H. O aparecimento dessa isoforma tecisoespecífica no sangue indica lesão miocárdica.
Quais troponinas são utilizadas para diagnosticar o infarto do miocárdio?
As troponinas I e T são utilizadas para diagnosticar lesões e infarto do miocárdio.
Elas são proteínas específicas que representam o teste mais sensível para detectar o infarto do miocárdio. São dosadas no sangue como um dos primeiros marcadores.
Questões de aulas e exames
Quais alterações nos exames de sangue são esperadas 5 horas após o ataque?
Cinco horas após a oclusão, espera-se um aumento da creatinoquinase (CK), pois é um marcador precoce (aumenta em 3-6 horas). Também é possível o início da elevação da atividade da AST (4-6 horas), enquanto a LDH permanece dentro dos limites normais nesta fase.
Como calcular corretamente o fator de aumento da atividade enzimática?
Para calcular a proporção, é necessário pegar o valor da atividade enzimática encontrado no paciente e dividi-lo pelo limite superior do valor de referência (normal) para esta enzima.
O que indica um alto valor de LDH com um nível normal de CK?
Este quadro laboratorial é típico do período tardio. Indica que o infarto do miocárdio ocorreu há alguns dias: o marcador rápido (CK) já normalizou, enquanto o lento (LDH) ainda circula no sangue.
Qual é o nível normal de creatino-quinase (CK)?
Normalmente, a atividade da creatinoquinase (CK) no soro sanguíneo não deve exceder 190 U/L.
O que mais estudar sobre o tema
- Construção de gráficos da dinâmica de alteração da atividade de CK, AST e LDH.
- Eixos de abscissas e ordenadas: cálculo da proporção em relação ao tempo após a oclusão.
- Mecanismo de desenvolvimento da síndrome de reabsorção-necrose.
- Diagnóstico diferencial de dor torácica (TEP, angina instável).
- Especificidade enzimática para diferentes tecidos.
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