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Em poucas palavras. A DPOC é uma limitação crônica e parcialmente reversível do fluxo aéreo decorrente de uma resposta inflamatória a partículas nocivas (mais frequentemente o tabagismo). O diagnóstico é confirmado por espirometria (VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,7). A classificação GOLD 2023 considera a limitação (1–4) e a clínica (grupos A/B/E). A base do tratamento são os broncodilatadores de longa ação (LAMA ± LABA), com corticoides inalatórios (CI) indicados no fenótipo de exacerbações/eosinofilia.
1. Definição e epidemiologia
A DPOC é uma doença pulmonar heterogênea caracterizada por sintomas respiratórios crônicos (dispneia, tosse, produção de escarro) devido a anormalidades nas vias aéreas (bronquite, bronquiolitis) e/ou alvéolos (enfisema), que resultam em obstrução crônica do fluxo aéreo.
É a 3ª causa de morte no mundo. Na Rússia, a prevalência é de 15% em indivíduos > 40 anos. O principal fator é o tabagismo (80–90% dos casos).
2. Etiologia e fatores de risco
- Tabagismo (ativo e passivo) — fator principal.
- Riscos ocupacionais: poeiras, vapores químicos.
- Poluição do ar, fumaça de biomassa (em países em desenvolvimento).
- Deficiência de α1-antitripsina — causa hereditária, especialmente em jovens.
- Infecções respiratórias crônicas na infância.
- Prematuridade, displasia broncopulmonar.
3. Fisiopatologia
Exposição crônica a irritantes → inflamação (linfócitos CD8, macrófagos, neutrófilos) → desequilíbrio protease/antiprotease → destruição da elastina alveolar (enfisema) e remodelamento de pequenas vias aéreas (bronquiolite obliterante) → limitação expiratória do fluxo e «air trapping» (aprisionamento de ar) → hiperinsuflação pulmonar → dispneia.
4. Quadro clínico
- Tosse crônica (durante anos).
- Produção de escarro, mais frequente pela manhã.
- Dispneia progressiva (mMRC 0–4).
- Infecções respiratórias frequentes.
- Em estágios avançados: perda de peso, fraqueza muscular, cianose, hipertensão pulmonar e cor pulmonale crônico.
Fenótipos clássicos: «blue bloater» (bronquítico crônico cianótico e edemaciado) e «pink puffer» (enfisematoso emagrecido com respiração lábia pinçada). Na prática, formas mistas são mais comuns.
5. Diagnóstico
Espirometria — obrigatória
- VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,7 — confirma obstrução persistente.
- Avaliação de gravidade pelo VEF1:
- GOLD 1 (leve): VEF1 ≥ 80%.
- GOLD 2 (moderada): 50–79%.
- GOLD 3 (grave): 30–49%.
- GOLD 4 (muito grave): < 30%.
Métodos adicionais
- Radiografia de tórax — exclusão de outras doenças, busca por complicações.
- Tomografia computadorizada de alta resolução — avaliação de enfisema e bronquiectasias, indicada em fumantes > 50 anos com risco de câncer.
- Gasometria arterial — quando VEF1 < 50%.
- Teste de caminhada de 6 minutos — estado funcional.
- α1-antitripsina — em jovens, não fumantes, com histórico familiar.
6. Classificação GOLD 2023 — grupos A/B/E
| Classe | Sintomas (mMRC/CAT) | Exacerbações no ano |
|---|---|---|
| A | Poucos sintomas (mMRC 0–1, CAT < 10) | 0–1 sem hospitalização |
| B | Sintomáticos (mMRC ≥ 2, CAT ≥ 10) | 0–1 sem hospitalização |
| E | Quaisquer sintomas | ≥ 2 ambulatoriais ou ≥ 1 com hospitalização |
Os grupos por letras A/B/E determinam o tratamento inicial, enquanto os números 1–4 (pela espirometria) determinam o prognóstico.
7. Tratamento: terapia inicial segundo GOLD 2023
| Classe | Início |
|---|---|
| A | Broncodilatador (SAMA/SABA sob demanda ou LAMA/LABA) |
| B | LAMA + LABA |
| E | LAMA + LABA; + CI se eosinófilos ≥ 330/µl |
Classes de medicamentos
- SABA (salbutamol), SAMA (ipratrópio) — ação curta, «sob demanda».
- LABA (formoterol, indacaterol) — agonistas β₂ de longa ação.
- LAMA (tiotrópio, umeclidínio) — anticolinérgicos de longa ação; preferíveis em caso de risco de exacerbações.
- CI (budesonida, fluticasona) — em combinação com LABA/LAMA na presença de eosinofilia e exacerbações frequentes. Riscos: pneumonia, efeitos sistêmicos.
- Roflumilast, azitromicina em baixas doses — em exacerbações graves apesar da terapia tripla.
8. Intervenções não farmacológicas
- Cessação do tabagismo — o único método que desacelera a progressão.
- Vacinação: anual contra influenza, vacinas pneumocócicas, COVID-19, VSR (> 60 anos).
- Reabilitação pulmonar — programas de exercícios, educação, suporte nutricional: ↓ exacerbações, ↑ qualidade de vida.
- Oxigenoterapia domiciliar prolongada (> 15 h/dia): quando PaO₂ ≤ 55 mmHg ou SpO₂ ≤ 88%; reduz a mortalidade.
- Ventilação não invasiva — na hipercapnia crônica.
- Cirurgia: bulectomia, cirurgia de redução do volume pulmonar, transplante — em pacientes selecionados.
9. Exacerbação da DPOC
Definição: piora aguda dos sintomas que requer intensificação do tratamento. Classificação por gravidade — tratamento ambulatorial, hospitalização, UTI.
Tratamento da exacerbação
- Aumento das doses de broncodilatadores (SABA ± SAMA por nebulizador).
- Corticosteroides sistêmicos — prednisona 40 mg/dia por 5 dias.
- Antibióticos em caso de escarro purulento ou PCR > 20 mg/L: amoxicilina/clavulanato, macrolídeo.
- Oxigenoterapia — alvo de SpO₂ de 88–92% (em pacientes com retenção de CO₂).
- Ventilação não invasiva (BiPAP) na acidose, pH < 7,35 — ↓ mortalidade e necessidade de intubação.
10. Complicações
- Hipertensão pulmonar, cor pulmonale crônico.
- Policitemia secundária.
- Eventos cardiovasculares (IAM, AVE) — principal causa de morte em alguns pacientes.
- Câncer de pulmão (especialmente em fumantes).
- Depressão, transtornos de ansiedade.
- Caquexia, sarcopenia.
11. FAQ
Qual é a diferença entre DPOC e asma?
A asma apresenta obstrução variável e frequentemente reversível, atopia, início na infância e predomínio de eosinófilos. A DPOC é progressiva, parcialmente reversível, ocorre em fumantes e tem predomínio de neutrófilos. A combinação é possível (ACO).
A DPOC tem cura?
Não. O tratamento alivia os sintomas, reduz a frequência de exacerbações e melhora a qualidade de vida. A progressão só é retardada pela cessação do tabagismo e oxigenoterapia de longa duração (em caso de hipoxemia).
Quando os CI são indicados?
Quando os eosinófilos sanguíneos são ≥ 300/µL ou ≥ 100/µL com exacerbações frequentes; em caso de sobreposição com asma. Usar com cautela em pacientes com histórico de pneumonia.
O que é mMRC?
Escala de dispneia (0–4): 0 — apenas com esforço intenso; 4 — dispneia ao se vestir/impede de sair de casa. Utilizada para a classificação A/B/E.
Qual é o papel da TC?
Não é para o diagnóstico da DPOC (que é clínico-funcional), mas para avaliar enfisema, excluir bronquiectasias e rastrear câncer de pulmão em fumantes.
Veja também: Pneumonia · Pneumotórax · Asma em crianças · Glicocorticoides · CURB-65 · Catálogo de Pneumologia