Sumário · 11 seções
Em resumo. A cirrose é o estágio terminal das doenças hepáticas crônicas, caracterizada por fibrose difusa e regeneração nodular. A gravidade é avaliada por Child-Pugh (A/B/C: bilirrubina, albumina, TP, ascite, encefalopatia) e MELD (bilirrubina, INR, creatinina, Na), que formam a base da lista de espera para transplante. Quatro complicações principais: hemorragia varicosa, ascite, encefalopatia hepática, PBE. O transplante é o único método radical em casos de descompensação.
1. Etiologia
- Hepatites virais B e C (60% na Rússia).
- Doença hepática alcoólica.
- Doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (DHGDM/MASLD) — causa em ascensão.
- Autoimunes: hepatite autoimune, colangite biliar primária, colangite esclerosante primária.
- Hereditárias: hemocromatose, doença de Wilson, deficiência de α1-antitripsina.
- Cardiogênica ("fígado em noz-moscada") na insuficiência cardíaca direita crônica.
- Induzida por medicamentos (metotrexato, amiodarona, nitrofurantoína).
2. Patogênese
Lesão hepatocelular repetida → ativação das células estreladas hepáticas (células de Ito) → síntese de colágeno → formação de septos entre os tratos portais e as veias centrais → distorção da arquitetura lobular, regeneração nodular. Consequências: ↓ função sintética (albumina, fatores de coagulação), ↓ desintoxicação (amônia → encefalopatia), ↑ resistência ao fluxo sanguíneo portal → hipertensão portal.
3. Quadro clínico
Cirrose compensada
- Frequentemente assintomática.
- Astenia, dispepsia, meteorismo.
- "Pequenos" sinais hepáticos: aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia, contratura de Dupuytren.
Descompensada
- Icterícia, prurido.
- Ascite, edemas.
- Horragias (por varizes esofágicas, hematomas cutâneos).
- Encefalopatia hepática (sonolência, tremor, asterixis, coma).
- Esplenomegalia, anastomoses portossistêmicas ("cabeça de medusa").
4. Diagnóstico
- Exames laboratoriais: ↑ ALT/AST, ↑ GGT e FA, ↑ bilirrubina, ↓ albumina, ↑ RNI, trombocitopenia.
- Investigação etiológica: HBsAg, anti-HCV, ferro/ferritina, ceruloplasmina, AMA, ANA, ASMA, IgG.
- Ultrassonografia + Doppler: contornos bosselados, ecogenicidade heterogênea, ↑ diâmetro da v. porta > 13 mm, fluxo reverso.
- Elastografia (FibroScan) — avaliação não invasiva da fibrose, > 12–14 kPa sugere cirrose.
- TC/RM — avaliação do volume hepático, nódulos suspeitos de CHC.
- EDA — rastreio de varizes esofágicas (VE) — obrigatória em todos os pacientes com cirrose.
- Biópsia hepática — em caso de etiologia incerta ou para avaliação de fibrose; padrão-ouro, mas vem sendo substituída pela elastografia.
5. Classificação de Child-Pugh
| Característica | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
|---|---|---|---|
| Encefalopatia | Não | I–II | III–IV |
| Ascite | Não | Moderada | Tensa |
| Bilirrubina, µmol/L | < 34 | 34–50 | > 50 |
| Albumina, g/L | > 35 | 28–35 | < 28 |
| TP (segundos de prolongamento) ou RNI | < 4 / < 1,7 | 4–6 / 1,7–2,3 | > 6 / > 2,3 |
Pontuação total: 5–6 — classe A (sobrevida em 1 ano ~100%); 7–9 — B (~80%); 10–15 — C (~45%).
6. Escore MELD
MELD = 3,78 × ln(bilirrubina) + 11,2 × ln(RNI) + 9,57 × ln(creatinina) + 6,43. Intervalo de 6–40. Utilizado para priorização no transplante hepático. A adição de sódio (MELD-Na) melhora a capacidade prognóstica na vigência de hiponatremia.
7. Complicações
Hipertensão portal e varizes esofágicas
- Gradiente de pressão venosa hepática (GPVH) > 10 mmHg — clinicamente significativa; > 12 mmHg — risco de sangramento.
- Profilaxia primária: betabloqueadores não cardiosseletivos (carvedilol, propranolol, nadolol) ou laqueadura elástica endoscópica.
- Hemorragia aguda: fármacos vasoativos (terlipressina, octreotida) + laqueadura elástica endoscópica + antibioticoterapia (ceftriaxona por 5–7 dias).
- Hemorragias recorrentes — TIPS (Derivação Portossistêmica Intra-Hepática Transjugular).
Ascite
- Paracentese diagnóstica: exclusão de PBE (neutrófilos > 250/µL).
- Restrição de sódio para 2 g/dia, restrição hídrica se Na < 125 mmol/L.
- Espironolactona 100 mg + furosemida 40 mg (proporção de 100:40), titulação progressiva até 400:160 mg.
- Ascite refratária — paracenteses de repetição com infusão de albumina (8 g por litro de líquido removido), TIPS, transplante.
Encefalopatia hepática
- Classificação de West Haven I–IV.
- Gatilhos: infecções, sangramentos, constipação, distúrbios hidroeletrolíticos, sedativos.
- Tratamento: lactulose (meta — 2 a 3 evacuações pastosas por dia), rifaximina 550 mg 2 vezes ao dia para profilaxia secundária.
- L-ornnitina L-aspartato (LOLA), aminoácidos de cadeia ramificada — como terapia adjuvante.
Peritonite bacteriana espontânea (PBE)
- Diagnóstico: neutrófilos > 250/µL no líquido ascítico.
- Flora: geralmente monobacteriana (E. coli, Klebsiella, S. pneumoniae).
- Terapia: ceftriaxona 2 g/dia por 5–7 dias + albumina 1,5 g/kg no 1º dia e 1 g/kg no 3º dia (↓ síndrome hepatorrenal).
- Profilaxia secundária: norfloxacino ou rifaximina.
Síndrome hepatorrenal
- Insuficiência renal funcional no contexto de cirrose.
- Tipo 1 — queda rápida da TFG; tipo 2 — lenta.
- Terapia: terlipressina + albumina; tratamento radical — transplante de fígado.
CHC
- Rastreamento: ultrassonografia + AFP a cada 6 meses.
- Diagnóstico por LI-RADS em RM/TC com contraste.
- O estadiamento BCLC determina a conduta: ressecção, ablação, TACE, lenvatinibe/atezolizumabe + bevacizumabe, transplante (critérios de Milan).
8. Tratamento de acordo com a etiologia
- HBV — tenofovir, entecavir por toda a vida.
- HCV — antivirais de ação direta (sofosbuvir + velpatasvir, etc.) — SVR > 95 %.
- Álcool — abstinência total; corticosteroides na hepatite alcoólica grave (Maddrey > 32).
- CBP — ácido ursodesoxicólico 13–15 mg/kg/dia; ácido obeticólico se resposta < 40 %.
- AIH — prednisona + azatioprina.
- Hemocromatose — flebotomias; doença de Wilson — D-penicilamina, zinco.
9. Transplante de fígado
- Indicações: Child-Pugh C, MELD ≥ 15, complicações refratárias, CHC dentro dos critérios de Milan.
- Contraindicações: HIV não corrigido, neoplasias malignas extra-hepáticas ativas, patologia cardiopulmonar grave, abuso ativo de substâncias.
- Sobrevivência em 5 anos — 70–75 %.
10. Manejo do paciente com cirrose compensada
- EDA no momento do diagnóstico; na ausência de Varizes Esofágicas (VE) — repetir em 2–3 anos.
- Ultrassonografia + AFP a cada 6 meses.
- Vacinação: HAV, HBV, gripe, pneumococo.
- Evitar AINEs, aminoglicosídeos, benzodiazepínicos.
- Suporte nutricional, proteína 1,2–1,5 g/kg, lanche tardio à noite.
11. FAQ
A cirrose é reversível?
A fibrose e a cirrose precoce podem regredir parcialmente com a remoção da causa (erradicação do HCV, abstinência alcoólica). A cirrose avançada é irreversível.
Quais betabloqueadores são preferíveis em caso de VE?
Carvedilol — reduz o gradiente de pressão de forma mais eficaz que o propranolol e não apresenta o efeito de taquifilaxia.
Pode-se usar AINEs na cirrose?
Não — eles pioram o fluxo sanguíneo renal, provocam LRA e sangramento por VE. Paracetamol até 2 g/dia é o preferido.
Quando indicar TIPS e quando indicar cirurgia de desvio (shunt)?
TIPS — para ascite refratária e sangramentos recorrentes; o shunt cirúrgico caiu em desuso, sendo raramente utilizado.
Como diferenciar transudato de exsudato na ascite?
Gradiente de albumina soro-ascite (GASA): ≥ 11 g/L — hipertensão portal; < 11 — inflamação, carcinomatose, tuberculose.
Veja também: DII · DRGE · Hepatites virais · Diuréticos · Catálogo de Gastroenterologia · Escores Clínicos