Taxonomia e origem
O gênero Neisseria integra a família Neisseriaceae. Além das próprias neissérias, esta família inclui outros gêneros com relevância médica, tais como Kingella e Eikenella.
O gênero recebeu esse nome em homenagem ao ilustre médico e microbiologista alemão Albert Neisser. Atualmente, o gênero abrange mais de vinte espécies bacterianas diferentes. Com base em seu grau de periculosidade para o ser humano, elas podem ser divididas em dois grandes grupos:
- Patógenos verdadeiros: N. gonorrhoeae (gonococo) e N. meningitidis (meningococo).
- Espécies oportunistas: N. lactamica, N. flavescens, N. sicca, entre outras. Esses microrganismos são habitantes naturais das mucosas e fazem parte da microbiota normal do trato respiratório superior de um indivíduo saudável.
Morfologia e propriedades tintoriais
O aspecto microscópico das neissérias é altamente específico, o que auxilia no diagnóstico laboratorial rápido.
- Comportamento na coloração de Gram: São bactérias Gram-negativas.
- Arranjo: São diplococos típicos, ou seja, encontram-se sempre dispostos em pares.
- Forma celular: As bactérias apresentam formato reniforme (semelhante a um feijão ou rim).
- Posicionamento mútuo: No par, os cocos estão voltados um para o outro por suas superfícies côncavas, o que os faz parecer dois grãos de café.
- Motilidade: As neissérias não possuem flagelos, portanto todos os representantes do gênero são estritamente imóveis.
Fisiología e propriedades culturais
O cultivo de neissérias em laboratório exige atenção especial, uma vez que essas bactérias são bastante exigentes.
- Respiração: As neissérias são aeróbias estritas (o oxigênio é vital para elas).
- Bioquímica: Todas as espécies são oxidase-positivas. Dentro do gênero, as bactérias são diferenciadas com base em características bioquímicas e antigênicas específicas.
- Meios de cultura: As bactérias são extremamente exigentes quanto às condições de cultivo. Para uma proliferação ativa, necessitam obrigatoriamente de fontes de ferro.
- Padrão de crescimento: Em meios sólidos, formam colônias pequenas, não pigmentadas e transparentes. Quando cultivadas em ágar-sangue, as neissérias não produzem zonas de hemólise (não destroem as hemácias).
Patogenicidade e fatores de sobrevivência
Apesar de os gonococos e meningococos causarem quadros clínicos totalmente distintos (gonorreia e meningite, respectivamente), eles possuem um parentesco genético colossal. O grau de homologia do seu DNA chega a 70%.
O principal fator que assegura a sobrevivência das neissérias patogênicas no organismo humano é a sua capacidade de obter ferro. As bactérias entram em competição ferrenha com as células do hospedeiro por esse micronutriente. Através de receptores de superfície específicos, elas conseguem se ligar à proteína humana transferrina e «roubar» dela as moléculas de ferro necessárias para o seu próprio metabolismo e multiplicação.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais meios de cultura seletivos são utilizados para o cultivo de neissérias patogênicas?
Para o cultivo de neissérias patogênicas, utilizam-se meios de cultura enriquecidos com proteínas humanas ou animais, aminoácidos e fontes de ferro.
- Ágar-sangue — meio sólido enriquecido contendo 5% de sangue.
- Ágar soro — meios sólido e semissólido (0,1%).
- Caldo soro — meio líquido enriquecido.
- Meio de tioglicolato — utilizado em um conjunto de meios enriquecidos.
- Meios com adição de aminoácidos — empregados para a semeadura bacteriológica de gonococos.
Quais fatores de virulência são característicos de Neisseria meningitidis?
Neisseria meningitidis caracteriza-se por um complexo de componentes estruturais e enzimas que atuam como fatores de patogenicidade.
- Lipooligossacarídeo (LOS) — principal fator de patogenicidade, exercendo a função de uma endotoxina de alta toxicidade.
- Cápsula polissacarídica — protege a bactéria contra a fagocitose e a bacteriólise mediada pelo complemento.
- Pilis do tipo IV — asseguram a adesão às células epiteliais e endoteliais.
- Proteínas da membrana externa — participam da fixação, invasión e do metabolismo do ferro.
- Enzimas de agressão — incluem hialuronidase, neuraminidase, fibrinolisina, bem como a IgA-protease, que cliva a imunoglobulina A secretora.
É fácil lembrar da forma: «Dois feijões sem flagelos sentam-se face a face e roubam ferro». Isso reflete a disposição em pares (diplococos), o formato de feijão, as superfícies côncavas, a imobilidade e a competição pela transferrina.
Questões de aulas e exames
Quais espécies de neissérias são indubitavelmente patogênicas para o ser humano?
Apenas duas espécies são consideradas patógenos estritos: Neisseria gonorrhoeae (agente causador da gonorreia) e Neisseria meningitidis (agente causador da doença meningocócica).
Qual é a aparência microscópica das neissérias em esfregaço?
Elas se apresentam como diplococos Gram-negativos (que não retêm a coloração roxa de Gram) com formato de feijão, orientados com suas faces côncavas voltadas uma para a outra.
As neissérias são capazes de destruir eritrócitos em ágar-sangue?
Não, ao crescerem em ágar-sangue, as neissérias não formam zonas de hemólise.
Como as neissérias patogênicas obtêm ferro no organismo do hospedeiro?
Elas utilizam receptores de superfície especiais, por meio dos quais competem com as células humanas pela proteína transferrina, extraindo dela o ferro.
O que mais estudar sobre o tema
- Estrutura antigênica detalhada de meningococos e gonococos
- Diferenciação bioquímica das espécies do gênero Neisseria
- Estrutura e funções dos receptores de superfície para transferrina
- O papel das espécies oportunistas (N. lactamica, N. sicca) na microbiota
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