Mecanismos de ação e principais efeitos
A farmacodinâmica dos neurolépticos típicos depende em grande parte de quais estruturas cerebrais específicas eles bloqueiam os receptores de dopamina (predominantemente do tipo $D_2$).
- Ação antipsicótica. Está associada ao bloqueio dos receptores $D_2$ no sistema mesolímbico. Os fármacos eliminam com sucesso os sintomas positivos (alucinações, delírios), mas praticamente não afetam os distúrbios negativos e cognitivos.
- Distúrbios extrapiramidais. Ocorrem como consequência direta do bloqueio da dopamina no sistema nigrostriatal, o que leva a alterações motoras.
- Alterações neuroendócrinas. O bloqueio dos receptores na zona tuberoinfundibular (hipotálamo e hipófise) remove a influência inibitória da dopamina sobre a síntese de prolactina. Desenvolve-se hiperprolactinemia, que nas mulheres se manifesta como galactorreia e amenorreia, e nos homens como ginecomastia e impotência. A secreção do hormônio do crescimento também diminui.
- Ação antiemética. Devido à inibição dos receptores de dopamina na zona gatilho do centro do vômito.
- Efeito sobre a termorregulação e os músculos. O tônus muscular diminui devido ao enfraquecimento das influências descendentes da formação reticular. A temperatura corporal cai (hipotermia) devido à inibição do centro termorregulador e à vasodilatação cutânea.
Classificação dos medicamentos
Os antipsicóticos típicos são divididos em três grupos principais com base em sua estrutura química:
- Derivados da fenotiazina (classificados pela cadeia lateral):
- Alifáticos: Clorpromazina, levomepromazina.
- Piperazínicos: Perfenazina, trifluoperazina, flufenazina.
- Piperidínicos: Tioridazina, pipotiazina.
- Derivados da butirofenona: Haloperidol, droperidol.
- Derivados do tioxanteno: Clorproterixeno.
Perfil farmacológico da clorpromazina
A clorpromazina é o representante padrão das fenotiazinas alifáticas. Além de sua ação antipsicótica, possui marcados efeitos sedativos e ansiolíticos.
Sua influência inibitória sobre a formação reticular ascendente do tronco cerebral leva à redução da atividade motora, eliminação de reações afetivas e calma geral. Em doses elevadas, ocorre sono superficial (devido ao bloqueio adicional de estruturas histaminérgicas e colinérgicas). O fármaco potencia ativamente a ação de depressores do SNC: anestésicos, hipnóticos e analgésicos narcóticos.
Farmacocinética:
- Mal absorvida por via oral.
- Altamente ligada às proteínas plasmáticas (cerca de 90%).
- Metabolizada no fígado, gerando mais de 150 metabólitos (metade dos quais ativos).
- A duração do efeito terapêutico é de cerca de 6 horas. O uso prolongado desenvolve tolerância (taquifilaxia).
Utilizada no tratamento da esquizofrenia, estados maníacos, delírio agudo, excitação psicomotora, agressão, bem como para o alívio de soluços e vômitos intratáveis, e pré-medicação anestesiológica.
Efeitos periféricos
A ação dos neurolépticos não se limita ao sistema nervoso central, afetando também a regulação autonômica:
- Ação anticolinérgica (antagonista muscarínico): causa efeitos clássicos semelhantes aos da atropina — boca seca (xerostomia), redução da secreção das glândulas brônquicas e digestivas, retenção urinária, constipação e distúrbios de acomodação visual.
- Ação alfa-bloqueadora: provoca queda na pressão arterial, risco de hipotensão ortostática e taquicardia reflexa. A inibição central do centro vasomotor também contribui para a hipotensão.
- Ação anti-histamínica: o bloqueio dos receptores $H_1$ confere efeito antialérgico, mas também contribui para a queda da pressão arterial e inibição da motilidade do músculo liso.
Distúrbios e complicações extrapiramidais
As complicações motoras são o problema mais frequente e grave dos neurolépticos típicos. Elas são divididas em dois grupos:
- Precoces (reversíveis):
- Parkinsonismo medicamentoso (tremor, rigidez, lentidão motora). É corrigido pela interrupção do fármaco ou prescrição de anticolinérgicos centrais.
- Contrações espásticas dos músculos da face, pescoço e dorso (ocorrem após as primeiras doses).
- Acatisia (inquietude motora, incapacidade de ficar parado).
- Tardias (irreversíveis):
- Discinesia tardia. Manifesta-se por movimentos excessivos e involuntários da face e do pescoço após uso prolongado (anos). Não desaparece com a suspensão e não responde ao tratamento.
Uma complicação com risco de vida é a síndrome neuroléptica maligna (SNM), caracterizada por rigidez muscular, hipertermia e instabilidade autonômica (flutuações da pressão arterial, taquicardia).
Contraindicações de uso
Os neurolépticos típicos são contraindicados em:
- Estados de depressão grave do SNC (coma, depressão).
- Doenças hepáticas e renais graves.
- Mixedema.
- Distúrbios da função hematopoiética (risco de agranulocitose e anemia hemolítica).
- Gravidez.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais fármacos específicos do grupo dos anticolinérgicos centrais são usados para corrigir o parkinsonismo medicamentoso?
Para a correção do parkinsonismo medicamentoso, utilizam-se anticolinérgicos centrais:
- Triexifenidila (ciclodol) — utilizado para a correção do parkinsonismo medicamentoso.
- Biperideno (acineton) — utilizado para a prevenção e reversão de distúrbios extrapiramidais causados pelo uso de neurolépticos.
Quais metabólitos ativos são formados durante a biotransformação da clorpromazina no fígado?
Durante a biotransformação da clorpromazina no fígado, forma-se um grande número de metabólitos — mais de 150. Cerca de 50% deles são farmacologicamente ativos. Os nomes específicos dos metabólitos ativos não são especificados na fonte.
Quais distúrbios do sistema sanguíneo podem ocorrer com o uso de neurolépticos típicos?
O uso de neurolépticos típicos pode causar reações hematológicas indesejadas e distúrbios graves do sistema sanguíneo.
- Agranulocitose (agranulocytosis) — um distúrbio hematológico perigoso.
- Anemia hemolítica (anaemia haemolytica) — uma condição patológica do sangue que surge como efeito adverso dos medicamentos.
Para compreender os efeitos, lembre-se da localização dos receptores: sistema mesolímbico — elimina a psicose; nigrostriatal — causa parkinsonismo; tuberoinfundibular — altera o perfil hormonal.
Questões de aulas e exames
Por que ocorre hipotermia ao tomar clorpromazina?
Este é o resultado de uma ação combinada: o fármaco inibe o centro termorregulador no hipotálamo e, ao mesmo tempo, causa vasodilatação cutânea (devido ao bloqueio dos receptores alfa-adrenérgicos), o que aumenta a perda de calor.
Como o parkinsonismo medicamentoso precoce induzido por neurolépticos é corrigido?
Os sintomas podem ser eliminados reduzindo a dose/interrompendo o neuroléptico, ou prescrevendo medicamentos antiparkinsonianos — anticolinérgicos centrais.
O que mais estudar sobre o tema
- Patogenese e princípios de tratamento da síndrome neuroléptica maligna
- Características da farmacodinâmica dos derivados de butirofenona (haloperidol, droperidol)
- Uso de neurolépticos típicos em anestesiologia (neuroleptoanalgesia)
- Mecanismos de desenvolvimento da discinesia tardia durante a terapia prolongada
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