Natureza da doença e reatividade
De acordo com o conceito de E. M. Tareev, qualquer doença representa uma reação de resposta do organismo à ação de diversos fatores, bem como a consequência da alteração da capacidade de adaptação às condições ambientais modificadas. Na base da patogênese, há sempre uma estreita interação entre o meio ambiente e a reatividade do organismo.
Os fatores causadores de doenças são tradicionalmente divididos em dois grandes grupos:
- Fatores externos: características alimentares, ambiente ecológico desfavorável, condições climáticas, além da ação de agentes infecciosos.
- Fatores internos: distúrbios congênitos do desenvolvimento e anomalias genéticas.
Os fatores internos frequentemente desempenham um papel decisivo. O mesmo fator etiológico causa uma doença grave em uma pessoa, enquanto passa despercebido em outra. Isso significa que a importância etiológica de qualquer influência externa depende diretamente do estado inicial dos mecanismos patogenéticos internos e da reatividade do paciente em questão.
Relação entre etiologia e patogênese
A base da patogênese é formada pelas reações fisiológicas do meio interno do organismo. Esses mecanismos patogenéticos baseiam-se em processos fisiológicos fixados hereditariamente, razão pela qual são relativamente constantes.
O principal princípio da reação do meio interno é a estereotipia. O organismo reage da mesma forma (de maneira constante) mesmo a estímulos completamente diferentes em sua natureza.
Um exemplo marcante dessa resposta estereotipada é o desenvolvimento de tumores malignos. O câncer pode ser provocado por uma enorme variedade de substâncias químicas ou radiações físicas (ou seja, existem muitas causas etiológicas), mas o próprio mecanismo de seu desenvolvimento (patogênese) permanece sempre o mesmo. O meio interno condiciona essa estereotipia e a orientação homeostática das reações, dialeticamente ligadas à causa da doença.
Síndrome hemorrágica: três níveis de etiologia
Vamos analisar a multiplicidade de fatores etiológicos utilizando o exemplo da síndrome hemorrágica. Trata-se de uma tendência patológica a sangramentos, manifestada por hemorragias e extravasamentos sanguíneos externos ou internos.
As causas de tendência a sangramentos dividem-se em três principais grupos (níveis patogenéticos):
- Via plaquetária. Relacionada à patologia das plaquetas sanguíneas. Pode manifestar-se por alterações quantitativas — trombocitopenias (exemplo clássico — doença de Werlhof) ou alterações qualitativas — trombocitopatias (disfunção das próprias plaquetas).
- Via de coagulação. Relacionada a distúrbios no sistema de coagulação do sangue. Mais frequentemente, trata-se de deficiência de determinados fatores de coagulação (por exemplo, na hemofilia).
- Via vascular. Causada por lesão da parede do vaso e alteração de sua permeabilidade. Incluem-se aqui a telangiectasia hereditária (doença de Rendu-Osler) e a vasculite hemorrágica (púrpura de Henoch-Schönlein).
Tratamento patogenético e sindrômico
Na prática clínica, o médico nem sempre conhece a causa exata da doença. No entanto, o conhecimento dos mecanismos de desenvolvimento (patogênese) permite prever o curso da doença e realizar uma terapia eficaz. Esse tratamento é denominado patogenético.
Por exemplo, a etiologia do diabetes mellitus não é totalmente clara, mas os distúrbios metabólicos detalhadamente estudados permitem tratar os pacientes com sucesso.
Devido à estereotipia das reações, os mesmos sinais patogenéticos podem ocorrer em diferentes nosologias. Assim, a hipertensão arterial pode ser a manifestação de uma hipertensão essencial primária ou pode ser apenas um sintoma de outras condições: doença renal, aterosclerose ou tumor da adrenal (feocromocitoma).
Quando a causa é desconhecida e as manifestações graves vêm à tona, aplica-se o tratamento sindrômico.
- Exemplo: Paciente em coma. O coma pode ser uma etapa de diabetes mellitus, malária grave ou uremia.
- Tática: O médico direciona seus esforços para a eliminação dessa síndrome com risco de vida, sem aguardar a elucidação da causa.
Na essência, trata-se de uma variante do tratamento patogenético que permite salvar a vida do paciente antes da elucidação definitiva da etiologia.
Os três elos causais da síndrome hemorrágica são fáceis de lembrar como a regra «P-C-V»: Plaquetas (Werlhof), Coagulação (hemofilia), Vasos (vasculites).
Questões de aulas e exames
A exposição a um fator patogênico sempre leva ao desenvolvimento da doença?
Não, nem sempre. O desenvolvimento da doença depende criticamente da reatividade do organismo e de fatores internos; o mesmo agente cancerígeno causará a doença em uma pessoa, mas não em outra.
É possível tratar eficazmente um paciente se a etiologia da sua doença for desconhecida?
Sim, é possível. Nesses casos, aplica-se o tratamento patogenético ou sindrômico, visando interromper os mecanismos de desenvolvimento da doença ou controlar sintomas que ameaçam a vida (por exemplo, o tratamento no diabetes mellitus).
Em que consiste a estereotipia da resposta do organismo?
A estereotipia significa que o organismo responde com reações fisiológicas e patológicas idênticas a influências externas completamente diferentes, o que é condicionado pelas propriedades de seu meio interno.
O que mais estudar sobre o tema
- Mecanismos de formação da reatividade do organismo
- Diagnóstico diferencial da síndrome hemorrágica
- Doença de Werlhof: etiologia e manifestações
- Hipertensões arteriais sintomáticas no feocromocitoma e na patologia renal
- Tipos de coma (diabético, urêmico, malárico) e sua patogênese
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