Conteúdo · 12 seções
- 1. Definições
- 2. Fases da sístole ventricular
- 3. Fases da diástole ventricular
- 4. Pressões nas câmaras e vasos
- 5. Volume sistólico e débito cardíaco
- 6. Bulhas cardíacas
- 7. Correlação com o ECG
- 8. Regulação do ciclo cardíaco
- 9. Correlações clínicas
- 10. Diagrama de Wiggers
- 11. Suprimento sanguíneo miocárdico no ciclo
- 12. FAQ
Em resumo. O ciclo cardíaco (com FC de 75 bpm — 0,8 s) inclui a sístole ventricular (0,33 s: contração isovolumétrica + ejeção) e a diástole (0,47 s: relaxamento isovolumétrico + enchimento rápido + enchimento lento + sístole atrial). Pressões principais: VE — até 120 mmHg na sístole, 0–8 diastólica; VD — 25/5. Bulhas: S1 (fechamento das valvas AV, início da sístole), S2 (valvas semilunares, início da diástole), S3 (enchimento rápido, jovens ou IC), S4 (sístole atrial, HVE). ECG: onda P — sístole atrial, QRS — início da sístole ventricular, T — fim da repolarização.
1. Definições
- Ciclo cardíaco — sequência de eventos mecânicos e elétricos durante uma única contração.
- Com FC de 75 bpm — duração de 0,8 s (sístole ~0,33 s, diástole ~0,47 s).
- Na taquicardia — a diástole encurta predominantemente (limitando o enchimento).
- Sístole — contração, diástole — relaxamento.
2. Fases da sístole ventricular
- Fase de contração isovolumétrica: valvas AV fechadas (S1), valvas semilunares ainda fechadas. A pressão aumenta acentuadamente, o volume não se altera.
- Fase de ejeção rápida: a pressão do VE excede a pressão aórtica (~80 mmHg), a valva aórtica se abre, o sangue é ejetado.
- Fase de ejeção lenta: a velocidade de ejeção cai, as pressões do VE e da aorta quase se igualam.
- Término: a pressão do VE cai abaixo da pressão da aorta → fechamento da valva aórtica (início de S2).
3. Fases da diástole ventricular
- Fase de relaxamento isovolumétrico: valvas semilunares fechadas (S2), valvas AV ainda não abertas. A pressão do VE cai rapidamente.
- Fase de enchimento rápido: quando a pressão do VE fica menor que a atrial, as valvas AV se abrem, o sangue flui dos átrios.
- Fase de enchimento lento (diástase): as pressões do VE e dos átrios se igualam.
- Sístole atrial (onda P no ECG): fornece 15–25% adicionais do volume do VE («chute atrial»).
4. Pressões nas câmaras e vasos
| Câmara/vaso | Sístole (mmHg) | Diástole |
|---|---|---|
| Átrio direito | — | 2–6 |
| Ventrículo direito | 25 | 0–5 |
| Artéria pulmonar | 25 | 10 |
| Átrio esquerdo | — | 6–12 |
| Ventrículo esquerdo | 120 | 0–8 |
| Aorta | 120 | 80 |
5. Volume sistólico e débito cardíaco
- VDF (volume diastólico final) do VE — 120 mL.
- VSF (volume sistólico final) — 50 mL.
- VS (volume sistólico) = VDF − VSF = 70 mL.
- FE (fração de ejeção) = VS / VDF × 100% = 58% (normal ≥ 52% em homens, ≥ 54% em mulheres).
- DC (débito cardíaco) = VS × FC = 70 × 75 ≈ 5,25 L/min em repouso.
- Índice cardíaco = DC / área de superfície corporal; normal 2,5–4,0 L/min/m².
6. Bulhas cardíacas
- S1 — fechamento das valvas mitral e tricúspide, início da sístole; mais audível no ápice.
- S2 — fechamento das valvas aórtica e pulmonar, início da diástole; melhor no 2º espaço intercostal. Desdobramento fisiológico na inspiração (aórtico antes do pulmonar).
- S3 — no início da diástole (enchimento rápido); normal em jovens até 40 anos, em adultos é patológico (IC, sobrecarga de volume).
- S4 — pré-sistólico (sístole atrial contra um VE rígido); patológico (HVE, estenose aórtica, IAM).
- Adicionais: estalo de abertura mitral (EAM) na estenose mitral; clique sistólico no prolapso da valva mitral (PVM).
7. Correlação com o ECG
- Onda P → sístole atrial (no final da diástole ventricular).
- Intervalo PR → atraso no nó AV.
- QRS → início da sístole ventricular; logo após o QRS — S1.
- Segmento ST → fase de ejeção lenta + platô do potencial de ação.
- Onda T → repolarização ventricular, fim da sístole; logo após a onda T — S2.
- Intervalo QT → duração da sístole ventricular (elétrica).
8. Regulação do ciclo cardíaco
- Lei de Frank-Starling: ↑ VDF → ↑ força de contração (até um certo limite).
- Lei do «tudo ou nada» para o miocárdio (ao contrário do músculo esquelético).
- Pré-carga (preload) — pressão diastólica final do VE; estiramento das fibras antes da contração.
- Pós-carga (afterload) — a resistência contra a qual o ventrículo se contrai (PA na aorta, RVS).
- Contratilidade — propriedade independente do miocárdio, regulada pelo simpático (β1 → ↑) e agentes inotrópicos.
- FC — regulada pelo sistema nervoso autônomo: simpático ↑, parassimpático (vago) ↓.
9. Correlação clínica
- Estenose mitral — prolongamento da diástole atrial, ↑ da pressão no AE → fibrilação atrial, congestão pulmonar.
- Estenose aórtica — ↑ da pós-carga, hipertrofia VE, B4, sopro sistólico tardio.
- Insuficiência mitral — sopro pansistólico, regurgitação para o AE, sobrecarga de volume, B3.
- Insuficiência cardíaca com FE preservada (HFpEF) — disfunção diastólica, alteração do enchimento.
- Insuficiência cardíaca com FE reduzida (HFrEF) — disfunção sistólica.
- Tamponamento pericárdico — limitação do enchimento diastólico de todas as câmaras.
10. Diagrama de Wiggers
- Representação gráfica do ciclo cardíaco: pressões no VE, aorta e AE + volume do VE + ECG + bulhas em um único eixo temporal.
- Permite visualizar claramente: quando as valvas abrem/fecham, quais fases estão ativas, como os eventos mecânicos e elétricos se relacionam.
- Clássico de livros-texto; útil para compreender estados patológicos (EAo, IM, EM, IAo).
11. Suprimento sanguíneo miocárdico no ciclo
- O VE recebe sangue quase exclusivamente na diástole (a compressão sistólica dos vasos dificulta o fluxo sanguíneo).
- Na taquicardia (↓ da diástole) — risco de isquemia do VE.
- VD — fluxo sistólico-diastólico (pressão mais baixa).
- Reserva coronariana — capacidade de ↑ o fluxo sanguíneo em 4 a 5 vezes durante o esforço.
12. FAQ
Por que a diástole é a fase mais afetada na taquicardia?
A sístole permanece relativamente constante (~0,3 s), enquanto a diástole encurta proporcionalmente à FC. Com FC > 150 bpm, quase não há diástole, prejudicando o enchimento e o fluxo coronariano → isquemia, ↓ DC.
O que é a «contração atrial» (pulso atrial) e quando ela é importante?
A sístole atrial fornece 15–25% do VDF ventricular. Em miocárdios rígidos (HVE, EAo, idosos), essa proporção sobe para 40%. Sua perda (FA) → queda do DC, especialmente na EAo e na HFpEF.
Por que a B2 se desdobra na inspiração?
A inspiração ↑ o retorno venoso para o VD → prolonga sua sístole → o fechamento da valva pulmonar ocorre após o da aórtica. Normalmente, o desdobramento é de 20–40 ms. O desdobramento paradoxal (na expiração) ocorre no BRE.
O que significa um «ritmo de galope»?
Um ritmo de três ou quatro bulhas (B1 + B2 + B3/B4 ± ambas). O galope de B3 («protodiastólico») ocorre na IC com disfunção sistólica. O galope de B4 («presistólico») ocorre na HVE, EAo, hipertensão e isquemia. O galope de somação ocorre na taquicardia quando há presença simultânea de B3 e B4.
Como o ciclo cardíaco se altera na fibrilação atrial?
Ritmo irregular → durações de ciclo variadas; ausência de sístole atrial efetiva → pulso deficitário (diferença entre a FC na artéria radial e na ausculta); ↑ risco de tromboembolismo originado no AE.
Veja também: ECG normal · Ausculta cardíaca · Insuficiência cardíaca · Valvopatias · Catálogo de Cardiologia