Classificação e características morfológicas
O gênero Trypanosoma agrupa espécies patogênicas para humanos, descobertas no início do século XX. Isso inclui as subespécies de T. brucei (gambiense e rhodesiense), causadoras da tripanossomíase africana, e a T. cruzi, responsável pela tripanossomíase americana.
Morfologicamente, o tripanossoma é uma célula estreita e alongada. A locomoção é proporcionada por um flagelo e uma membrana ondulante. Os parasitas se reproduzem de forma assexuada por divisão longitudinal.
Dependendo do estágio do ciclo de vida, distinguem-se três formas principais:
- Epimastigotas (estágio critidial). Habitam o intestino do vetor. O flagelo origina-se a partir do meio da célula, a membrana ondulante não é proeminente.
- Tripomastigotas (estágio tripanossômico). Localizam-se no sangue dos vertebrados. O flagelo origina-se na extremidade posterior, a membrana é altamente proeminente.
- Amastigotas (estágio aflagelado). Característicos de T. cruzi. Possuem formato oval, sem flagelo, e desenvolvem-se estritamente no interior das células (nos tecidos musculares e outros).
Tripanossomíase africana (Doença do sono)
A doença é transmitida por moscas tsé-tsé hematófagas. Existem duas formas de infecção:
- Gambiense (T. brucei gambiense). Caracteriza-se por um curso crônico. O principal reservatório é o ser humano, com os suínos atuando como reservatório secundário.
- Rodesiense (T. brucei rhodesiense). Possui evolução aguda e grave. Os animais (antilopes, gado bovino, cabras) atuam como reservatório, sendo rara a infecção em humanos.
Patogênese: No local da picada, até o final da primeira semana, forma-se uma pápula ulcerada (cancro de tripanossoma). O agente causal entra na corrente sanguínea, multiplica-se e dissemina-se para os linfonodos e o líquido cefalorraquidiano. Clinicamente, isso se manifesta por febre, meningoencefalite, fadiga progressiva, emaciação e sonolência específica. Sem tratamento, a infecção é fatal (embora o portador assintomático seja possível).
Tripanossomíase americana (Doença de Chagas)
O agente causal é o T. cruzi. Os vetores são os percevejos triatomíneos («barbeiros»). A infecção não ocorre através da picada em si, mas pela fricção das fezes do inseto na ferida ou nas membranas mucosas.
O período de incubação dura de 1 a 3 semanas. No local de penetração, forma-se um infiltrado denso e vermelho-escuro. O ciclo de vida no corpo humano divide-se em duas fases:
- Sanguínea: os tripomastigotas circulam na corrente sanguínea, mas não se multiplicam.
- Tecidual: o parasita penetra nas células, transforma-se em amastigota e divide-se ativamente por fissão binária. A célula sobrecarregada se rompe, e novos tripomastigotas são liberados para infectar as células vizinhas.
Na fase aguda, observam-se linfadenite, febre, miocardite, hepatoesplenomegalia e envolvimento cerebral. A fase crônica pode apresentar um período latente que chega a várias décadas.
Resposta imune e diagnóstico microbiológico
Na fase aguda da doença, há produção de altos níveis de IgM protetora e inespecífica; na fase crônica, aparecem as IgG. No entanto, os tripanossomas conseguem escapar eficazmente do sistema imune devido à alta variação antigênica (mudando constantemente suas variantes antigênicas). O desenvolvimento de reações patológicas autoimunes também é característico das tripanossomíases.
Métodos de diagnóstico:
- Microscopia: exame de esfregaços sanguíneos, líquor ou aspirado de gânglios linfáticos (coloração de Romanowsky-Giemsa ou Wright).
- Métodos biológicos e culturais: infecção de ratos/camundongos de laboratório ou inoculação em meios nutritivos com adição de sangue.
- Sorologia: ELISA, RFC e RIF indireta para detecção de anticorpos.
Princípios de tratamento e prevenção
O tratamento depende da espécie do agente causal e do estágio da doença. Para a forma africana, utilizam-se suramina ou pentamidina. Se o SNC estiver envolvido, emprega-se o melarsoprol (composto de arsênico capaz de atravessar a barreira hematoencefálica). O tratamento da doença de Chagas (benznidazol, nifurtimox) é eficaz apenas na fase aguda.
A prevenção inclui a eliminação de animais reservatórios e locais de reprodução dos vetores. Para proteção pessoal, recomenda-se o uso de repelentes, roupas protetoras, bem como telas nas janelas e mosquiteiros durante o sono.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais meios de cultura específicos são utilizados para cultivar tripanossomas?
Para o cultivo de tripanossomas, utilizam-se meios nutritivos específicos com adição de sangue.
- Meio NNN — meio principal (nomeado pelas iniciais dos autores: Novy, MacNeal e Nicolle), que consiste em ágar com adição de sangue desfibrinado de coelho.
Também são empregados métodos alternativos: cultivo na membrana corioalantoide de embrião de galinha e uso de culturas celulares.
Quais são os sintomas clínicos específicos característicos da fase neurológica da doença do sono?
São característicos da fase neurológica da doença do sono:
- Meningoencefalite decorrente da disseminação do agente causal no líquido cefalorraquidiano.
- Sonolência — daí o nome «doença do sono».
- Fadiga.
- Emaciação.
Sem tratamento, a doença evolui para óbito.
Quais complicações tardias se desenvolvem na fase crônica da doença de Chagas?
Na fase crônica da doença de Chagas, desenvolvem-se graves complicações tardias envolvendo os sistemas cardiovascular e gastrintestinal.
- Comprometimento cardíaco — inclui cardiomiopatia, bloqueios de ramo do feixe de His, bloqueio atrioventricular total e aneurismas ventriculares.
- Comprometimento do TGI — causado por danos aos neurônios do plexo mioentérico decorrentes da ação neurotóxica de Trypanosoma cruzi. Manifesta-se como acalásia, megaesôfago e megacólon.
«Mosca Tsé-Tsé africana» — a mosca tsé-tsé causa a doença do sono (África). «Barbeiro americano» — os percevejos causam a doença de Chagas (América).
Questões de aulas e exames
Qual é a diferença no mecanismo de infecção entre a doença do sono e a doença de Chagas?
Na doença do sono, o parasita entra na corrente sanguínea diretamente pela picada da mosca tsé-tsé. Na doença de Chagas, a infecção ocorre por contaminação: o percevejo elimina fezes, que o próprio indivíduo esfregou no local da picada ou nas mucosas.
Em qual estágio T. cruzi se multiplica no organismo humano?
A reprodução ocorre exclusivamente no interior das células na forma de amastigota aflagelada por fissão binária. As tripomastigotas circulantes no sangue não se dividem.
Por que não se forma uma imunidade duradoura contra as tripanossomíases?
Os agentes causais possuem uma variabilidade antigênica extremamente alta. Eles geram constantemente novas variantes de antígenos de superfície, forçando o sistema imunológico a reiniciar a resposta a cada vez.
O que mais estudar sobre o tema
- Mecanismos moleculares da variabilidade antigênica dos tripanossomas
- Patogênese dos processos autoimunes na doença de Chagas
- Mecanismos de penetração de T. brucei através da barreira hematoencefálica
- Especificidade do cultivo de parasitas em meios de cultura sanguíneos
- Farmacodinâmica e toxicidade dos compostos de arsênico (melarsoprol)
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