Transporte de colesterol alimentar e o papel dos quilomícrons
Embora absolutamente todos os tipos de lipoproteínas participem do transporte de lipídios, na etapa inicial — a fase de absorção do colesterol exógeno (ingerido com os alimentos) —, os principais intervenientes são os quilomícrons (QM). Esse processo tem início nas células intestinais, denominadas enterócitos.
No interior dos quilomícrons, o colesterol encontra-se em duas formas principais:
- Colesterol livre.
- Ésteres de colesterol. Para a sua formação na mucosa intestinal, atua um enzima especializado — a acir-coenzima A-colesterol aciltransferase (abreviada como ACAT).
Assim que os quilomícrons maduros abandonam as células intestinais e entram na corrente sanguínea, o seu metabolismo ativo começa. No sangue, sofrem a ação do enzima LPL (lipoproteína lipase). A sua principal tarefa é hidrolisar as gorduras (triacilgliceróis) que compõem os quilomícrons. Como resultado dessa degradação enzimática, os quilomícrons "perdem peso" e transformam-se nos chamados quilomícrons residuais (remnantes). Essas partículas remnantes, que ainda contêm uma quantidade significativa de colesterol, são finalmente capturadas pelas células hepáticas — os hepatócitos.
Hipercolesterolemia familiar (Tipo II)
Entre todas as perturbações do metabolismo lipídico acompanhadas por um aumento nos níveis de colesterol, a hipercolesterolemia familiar é a doença mais comum. É um exemplo clássico de hiperlipoproteinemia com uma base genética clara.
Epidemiologia e genética: Os portadores heterozigóticos do gene defeituoso ocorrem na população com uma frequência de 1 em cada 500 pessoas. A etiologia da própria doença reside em várias mutações que afetam o gene que codifica a proteína recetora de LDL (lipoproteínas de baixa densidade). Este gene possui uma estrutura bastante complexa, incluindo muitos intrões e exões, o que explica o enorme número de falhas possíveis: até à data, foram descritos mais de 300 tipos de mutações diferentes.
A patogénese da doença desenvolve-se de acordo com a seguinte cadeia:
- A presença de uma mutação genética leva a danos na estrutura normal do recetor de LDL.
- O recetor defeituoso perde a capacidade de realizar a endocitose após ligar-se à LDL.
- Devido ao bloqueio da entrada de lipoproteínas nas células, o nível de colesterol no sangue aumenta rapidamente, desenvolvendo-se hipercolesterolemia.
- O excesso crónico de colesterol no plasma conduz inevitavelmente à formação precoce de aterosclerose.
Bases bioquímicas do desenvolvimento da aterosclerose
O resultado natural e mais temível da dislipoproteinemia de longa data (em particular, a hipercolesterolemia familiar tipo II) torna-se a aterosclerose.
Do ponto de vista bioquímico e fisiopatológico, a aterosclerose é uma doença na qual ocorre uma lesão específica da camada interna da parede arterial. O elo-chave deste processo é a deposição patológica de colesterol em excesso na íntima dos vasos. É precisamente a íntima (a túnica interna) que se torna o alvo da infiltração lipídica, o que subsequentemente leva ao estreitamento do lúmen vascular, à perturbação do fluxo sanguíneo e ao desenvolvimento de complicações isquémicas graves.
Resumo: perguntas e respostas sobre o tema
Quais são os tipos de hiperlipoproteinemias de acordo com a classificação de Fredrickson?
Nas fontes apresentadas, são descritos os seguintes tipos de hiperlipoproteinemias (o próprio nome de Fredrickson não é mencionado):
- Tipo II — hipercolesterolemia familiar. Caracteriza-se por um aumento na concentração de LDL e pelo desenvolvimento de hipercolesterolemia devido a mutações no gene do recetor de LDL ou na apoB-100.
- Tipo III — hiperlipidemia familiar combinada. Manifesta-se por um aumento na concentração de QM residuais, VLDL, IDL e LDL devido a um defeito na estrutura da apoE.
- Tipos IV e V — hipertrigliceridemia familiar. Causados pela produção excessiva de VLDL, o que leva à hipertrigliceridemia.
Que lipoproteínas são responsáveis pelo transporte reverso do colesterol dos tecidos para o fígado?
As lipoproteínas de alta densidade (HDL) são responsáveis pelo transporte reverso do colesterol. Elas desempenham a função de remover o excesso de colesterol livre dos tecidos periféricos, incluindo as paredes vasculares e os macrófagos, transportando-o para o fígado. No fígado, o colesterol é convertido em ácidos biliares ou excretado com a bílis. Graças a isso, as HDL reduzem a acumulação de colesterol na parede vascular e impedem o desenvolvimento da aterosclerose, ou seja, são anti-aterogénicas.
Qual é o papel do enzima LCAT no metabolismo das lipoproteínas?
O enzima lecitina-colesterol aciltransferase (LCAT) é responsável pela esterificação do colesterol livre na superfície das lipoproteínas de alta densidade (HDL). A sua ação conduz aos seguintes resultados:
- Os ésteres de colesterol hidrofóbicos formados mergulham no centro (núcleo) da partícula de HDL.
- As HDL discoides (imaturas) adquirem uma forma esférica, aumentam de tamanho e transformam-se em HDL₃.
- Cria-se um gradiente de concentração que permite às HDL capturar novas porções de colesterol dos macrófagos da parede vascular e de outros tecidos periféricos.
Assim, a LCAT acelera o transporte reverso do colesterol para o fígado e reduz o risco de aterosclerose.
Para memorizar onde exatamente o colesterol se deposita na aterosclerose, utilize a associação: o colesterol procura uma proximidade "ÍNTIMA" com o vaso, acumulando-se assim na camada interna — a íntima.
Questões de aulas e exames
O que acontece aos quilomícrons após entrarem na corrente sanguínea?
Na corrente sanguínea, sofrem a ação da lipoproteína lipase, que hidrolisa as gorduras (triglicerídeos) contidas nelas. Após isso, formam-se quilomícrons residuais, que são capturados pelos hepatócitos.
Que enzima é responsável pela formação de ésteres de colesterol no intestino?
Este processo é catalisado pelo enzima ACAT (acir-coenzima A-colesterol aciltransferase), que atua nas células da mucosa intestinal.
Em que consiste a patogénese da hipercolesterolemia familiar do tipo II?
As mutações perturbam a estrutura do recetor de LDL, impedindo-o de realizar a endocitose. Isto leva à acumulação de colesterol no sangue e ao desenvolvimento de aterosclerose precoce.
O que mais estudar sobre o tema
- Transporte de colesterol endógeno no organismo
- Mecanismos de transporte reverso do colesterol
- Classificação completa das hiperlipoproteinemias
- Organização estrutural do gene do recetor de LDL (exões e intrões)
- Estágios detalhados da formação da placa aterosclerótica na íntima
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