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Fisiología

Hemostasia: primária, secundária, fibrinólise e clínica

Redação WhiteCoat Pro11 de abril de 2026Atualizado em 16 de setembro de 20265 min de leitura
Conteúdo · 12 seções
  1. 1. Hemostasia primária
  2. 2. Hemostasia secundária — cascata
  3. 3. Fatores de coagulação
  4. 4. Fatores dependentes de vitamina K
  5. 5. Anticoagulantes naturais
  6. 6. Fibrinólise
  7. 7. Monitoramento laboratorial
  8. 8. Coagulopatias hereditárias
  9. 9. Trombofilias
  10. 10. Distúrbios adquiridos
  11. 11. Anticoagulantes e antiplaquetários
  12. 12. FAQ

Em poucas palavras. A hemostasia é o sistema de interrupção de sangramento composto por três etapas: primária (espasmo vascular + trombo plaquetário via vWF e GPIb/IIb-IIIa), secundária (cascata de coagulação: via extrínseca → TF/VIIa, via intrínseca → XII/XI/IX/VIII, via comum → X/V → trombina → fibrina) e fibrinólise (plasmina a partir do plasminogênio). Laboratório: TAP/RNI — via extrínseca, TTPA — via intrínseca, Dímero-D — fibrinólise. Distúrbios: doença de vW, hemofilia A (VIII) e B (IX), CIVD, trombofilias (Leiden, protrombina G20210A, deficiência de AT/PC/PS).

1. Hemostasia primária

  • Espasmo vascular — reflexo, nos primeiros segundos após a lesão.
  • Adesão plaquetária: colágeno subendotelial → fator de von Willebrand (vWF) → receptor GPIb nas plaquetas.
  • Ativação plaquetária: liberação do conteúdo dos grânulos densos (ADP, serotonina), grânulos α (fibrinogênio, vWF), síntese de TxA2.
  • Agregação: o receptor GPIIb/IIIa liga-se ao fibrinogênio, as plaquetas são «conectadas» umas às outras.
  • O resultado é o «trombo» plaquetário branco; suficiente para pequenos vasos.

2. Hemostasia secundária — cascata

  • Cascata de coagulação — proteólise em cascata dos fatores de coagulação (principalmente serino proteases).
  • Via extrínseca: fator tecidual (TF, III) + VIIa → ativação de X.
  • Via intrínseca: contato com superfície negativa → XII → XI → IX + VIII → X.
  • Via comum: Xa + Va → protrombina (II) → trombina (IIa) → fibrinogênio (I) → fibrina.
  • XIIIa — liga as fibras de fibrina em um polímero estável.
  • Modelo moderno (baseado em células): iniciação (TF/VIIa) → amplificação (a trombina ativa V, VIII, XI, plaquetas) → propagação (explosão massiva de trombina).

3. Fatores de coagulação

FatorNomeSínteseCaracterística
IFibrinogênioFígadoFase aguda
IIProtrombinaFígadoDependente de vitamina K
IIIFator tecidualEndotélio, fibroblastosGatilho da via extrínseca
IVCa²⁺—Cofator
VProacelerinaFígadoMutação de Leiden → trombofilia
VIIProconvertinaFígadoVit. K; menor T½ (~6 h)
VIIIAnti-hemofílicoEndotélioHemofilia A
IXChristmasFígadoVit. K; hemofilia B
XStuart-ProwerFígadoVit. K
XIPTAFígadoHemofilia C (Rosenthal)
XIIHagemanFígadoA deficiência não causa sangramento
XIIIEstabilizador de fibrinaFígadoLigação cruzada de fibrina
vWFvon WillebrandEndotélio, megacariócitosAdesão + transportador de VIII

4. Fatores dependentes de vitamina K

  • II, VII, IX, X + proteínas anticoagulantes C e S.
  • A vitamina K é o cofator da γ-carboxilase, adicionando resíduos de γ-carboxiglutamato necessários para a ligação de Ca²⁺.
  • A varfarina bloqueia a epóxido redutase (VKORC1) → fatores inativos.
  • Recém-nascidos e antibioticoterapia → deficiência de vitamina K → doença hemorrágica.
  • Antídoto da varfarina — vitamina K1 (fitomenadiona) + PFC ou concentrado de complexo protrombínico (PCC) em caso de sangramento grave.

5. Anticoagulantes naturais

  • Antitrombina III — principal inibidor da trombina e do Xa; a heparina potencializa sua ação em 1000 vezes.
  • Proteína C (+ cofator proteína S) — inativa Va e VIIIa; ativada pela trombomodulina no endotélio.
  • TFPI (inibidor da via do fator tecidual) — inibe VIIa/TF.
  • Heparan-sulfato endotelial — análogo endógeno da heparina.
  • Deficiências: AT III, proteína C e S — trombofilias hereditárias.

6. Fibrinólise

  • Plasminogênio → plasmina (pela ação do tPA — endotélio, ou da uroquinase).
  • A plasmina degrada a fibrina → produtos de degradação da fibrina (PDF), incluindo o dímero-D.
  • Inibidores: α2-antiplasmina (inativa a plasmina), PAI-1 (inibidor do tPA).
  • Clinicamente: tPA/alteplase — trombolise no IAM, AVEi, TEP.
  • Ácido tranexâmico, ácido aminocaproico — antifibrinolíticos para sangramentos.

7. Monitoramento laboratorial

ParâmetroEutrofiaO que reflete
TP / RNI11–15 s / 0,8–1,2Via extrínseca + via comum; vit. K, fígado, varfarina
TTPA25–35 sVia intrínseca + comum; heparina, hemofilias
Tempo de trombina15–18 sFibrinogênio → fibrina
Fibrinogênio2–4 g/LFase aguda; ↓ na CIVD
Dímero-D< 500 ng/mLFibrinólise; ↑ TEV, CIVD
Anti-Xa0,6–1,0 UI/mL (HBPM)Monitoramento de heparinas
Plaquetas150–400 × 10⁹/LHemostasia primária
Tempo de sangramento de Ivy2–7 minFunção plaquetária + vW
TEG/ROTEM—Avaliação global da coagulação

8. Coagulopatias hereditárias

  • Hemofilia A — deficiência de VIII, recessiva ligada ao X; hemartroses, hematomas musculares.
  • Hemofilia B (doença de Christmas) — deficiência de IX; clinicamente semelhante à A.
  • Doença de von Willebrand — a coagulopatia hereditária mais comum, autossômica dominante; sangramentos mucocutâneos, tempo de sangramento prolongado, ↑ TTPA.
  • Tratamento: VIII, IX recombinantes; concentrados de vWF/VIII; DDAVP — aumenta a liberação de vWF na dVW leve.
  • Inibidores do VIII — anticorpos em 20–30% dos pacientes com hemofilia A grave → uso de FEIBA, rFVIIa, emicizumabe.

9. Trombofilias

  • Fator V Leiden (mutação Arg506Gln) — resistência à proteína C ativada; a mais comum.
  • Mutação da protrombina G20210A — ↑ da protrombina plasmática.
  • Deficiência de AT III, proteína C, proteína S.
  • Síndrome antifosfolípide — anticorpos anticardiolipina, anti-β2-glicoproteína I, anticoagulante lúpico; tromboses arteriais e venosas, abortos de repetição.
  • Hiperhomocisteinemia.
  • Investigação indicada em: TEV antes dos 50 anos, TEV não provocada, abortos de repetição, histórico familiar.

10. Distúrbios adquiridos

  • CIVD — ativação disseminada da coagulação + fibrinólise; sepse, catástrofes obstétricas, neoplasias, traumas.
  • Achados laboratoriais na CIVD: ↑ dímero-D, ↓ fibrinogênio, ↓ plaquetas, TP/TTPA prolongados.
  • Insuficiência hepática — alteração na síntese de todos os fatores, exceto o VIII.
  • Deficiência de vitamina K — em recém-nascidos, diarreia crônica, síndrome disabsortiva, uso de antibióticos.
  • Transfusão massiva — coagulopatia dilucional.
  • Trombocitopenia induzida por heparina (TIH, HIT) — anticorpos contra o complexo fator plaquetário 4 (PF4)-heparina → tromboses paradoxais.

11. Anticoagulantes e antiplaquetários

  • HNF (heparina não fracionada) — potencializa a AT III, inibe IIa e Xa; monitoramento pelo TTPA.
  • HBPM (enoxaparina, nadroparina) — predominantemente anti-Xa; monitorização do anti-Xa.
  • Fondaparinux — anti-Xa seletivo; não causa HIT.
  • Varfarina — VKORC1; monitorização do RNI (alvo 2,0–3,0 ou 2,5–3,5 em prótese valvar).
  • DOACs: dabigatrana (inibidor direto da trombina), rivaroxabana/apixabana/edoxabana (Xa diretos). Antídotos: idarucizumab (dabigatrana), andexanet alfa (inibidores de Xa).
  • Antiplaquetários: aspirina (COX-1 → bloqueio do TxA2), clopidogrel/ticagrelor/prasugrel (P2Y12), abciximabe/tirofibana (GPIIb/IIIa).

12. FAQ

Por que a deficiência de fator XII não causa sangramento?
O fator XII in vivo desempenha um papel mínimo — a coagulação é iniciada pela via extrínseca (TF/VIIa). A deficiência de XII é visível apenas in vitro (TTPa ↑), clinicamente assintomática.

Qual é a diferença entre um trombo "branco" e um "vermelho"?
Branco — plaquetário, em artérias de alto fluxo (SCA). Vermelho — fibrina + eritrócitos, em veias de baixo fluxo (TEV). Daí a indicação — antiplaquetários para tromboses arteriais, anticoagulantes para venosas.

Por que o dímero-D é "ruim" para diagnosticar TEP, mas bom para excluí-lo?
Alta sensibilidade (> 95%) → um resultado negativo exclui com segurança o TEP em pacientes com baixa probabilidade pré-teste. Porém, a especificidade é baixa — ↑ em várias condições (sepse, cirurgias, neoplasias, gravidez).

Como reverter rapidamente a varfarina antes de uma cirurgia?
Suspender 5 dias antes, controlar o RNI na véspera; em caso de alto risco trombótico (prótese valvar, TEV recente) — "ponte" com HBPM com a última dose 24h antes da cirurgia.

Por que na insuficiência hepática o fator VIII está aumentado, enquanto os outros estão diminuídos?
O fator VIII é sintetizado não apenas no fígado, mas também no endotélio (como proteína de fase aguda). Os demais dependentes de vitamina K (II, VII, IX, X) e o fibrinogênio são sintetizados apenas nos hepatócitos, por isso estão deficientes na doença hepática.

Veja também: Coagulação intravascular disseminada · Hemofilia · TEP · Terapia anticoagulante · Catálogo de Hematologia

O material tem caráter educacional e não substitui a consulta médica. Verifique esquemas de tratamento e dosagens com as diretrizes clínicas vigentes.

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