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Em resumo. Os intervalos de referência abrangem 95% da população saudável. Valores críticos (valores de pânico) exigem condutas imediatas: K⁺ < 2,5 ou > 6,5 mmol/L, Na⁺ < 120 ou > 160, glicose < 2,2 ou > 25, pH < 7,2 ou > 7,6, Hb < 70 g/L, plaquetas < 20×10⁹/L, RNI > 5, troponina em qualquer concentração acima do percentil 99 na vigência de quadro clínico de SCA. Devem sempre ser interpretados em conjunto com o quadro clínico, idade, sexo, gravidez e uso de medicamentos.
1. Princípios gerais
- Intervalo de referência — ±2σ da média em indivíduos saudáveis (95%).
- 5% dos indivíduos saudáveis ficam "fora" dos limites — um desvio isolado nem sempre é patológico.
- Variabilidade biológica: diurna, cíclica (hormônios), sazonal.
- Erro pré-analítico: hemólise, lipemia, erros na coleta, torniquete prolongado, veia após punção venosa.
- Unidades do SI: mmol/L vs mg/dL (glicose ×18, creatinina ×0,0884).
2. Hemograma completo (HC)
| Parâmetro | Normal (adultos) | Significado clínico |
|---|---|---|
| Hemácias | H 4,0–5,5; M 3,8–5,0 ×10¹²/L | Anemia / eritrocitose |
| Hemoglobina | H 130–170; M 120–150 g/L | < 70 — transfusão (individualizado) |
| Hematócrito | H 40–50; M 36–46 % | Desidratação, policitemia |
| MCV | 80–100 fL | < 80 — microcítica; > 100 — megaloblástica |
| MCH | 27–33 pg | Hipo-/hipercromia |
| RDW | 11,5–14,5 % | Anisocitose ↑ na deficiência de ferro |
| Reticulócitos | 0,5–2 % | Regeneração da medula óssea |
| Leucócitos | 4–9 ×10⁹/L | Infecção, hemopatia maligna |
| — neutrófilos | 47–72 % | Desvio à esquerda — infecção bacteriana |
| — linfócitos | 19–37 % | Virais, linfoproliferação |
| — eosinófilos | 0,5–5 % | Alergia, parasitoses |
| — basófilos | 0–1 % | LMC |
| — monócitos | 3–11 % | Infecções crônicas, tuberculose |
| Plaquetas | 150–400 ×10⁹/L | < 50 — risco de sangramento |
| VHS | H até 15; M até 20 mm/h | Marcador inflamatório inespecífico |
3. Bioquímica — proteínas e compostos nitrogenados
- Proteínas totais: 65–85 g/L.
- Albumina: 35–50 g/L (síntese hepática; ↓ na síndrome nefrótica, cirrose, sepse).
- Globulinas: 20–35 g/L; relação albumina/globulina (A/G) de 1,5–2,5.
- Ureia: 2,5–8,3 mmol/L.
- Creatinina: H 62–106; M 44–88 μmol/L. Utilizada nas fórmulas de TFG (CKD-EPI).
- Ácido úrico: H 210–420; M 150–350 μmol/L (gota > 420).
- Cistatina C: 0,6–0,95 mg/L (marcador de TFG mais preciso em idosos).
4. Provas hepáticas
| Parâmetro | Eutrofia | Significado clínico |
|---|---|---|
| TGP (ALT) | < 40 U/L | Lesão hepatocelular |
| TGO (AST) | < 40 U/L | Fígado, miocárdio, músculos |
| TGO/TGP (razão de De Ritis) | 0,8–1,3 | > 2 — hepatite alcoólica, cirrose |
| GGT | H < 55; M < 38 U/L | Colestase, álcool |
| Fosfatase alcalina | 40–150 U/L (adultos) | Colestase, patologia óssea |
| Bilirrubina total | 3,4–20,5 µmol/L | > 34 — icterícia |
| — direta | até 5 µmol/L | Colestase, lesão hepática |
| — indireta | até 15 µmol/L | Hemólise, Gilbert |
| RNI/TP | 0,8–1,2 | Função sintética do fígado |
| Albuminemia | 35–50 g/L | Insuficiência hepática crônica |
5. Perfil lipídico
- Colesterol total: < 5,2 mmol/L.
- LDL-C: < 3,0 mmol/L em indivíduos saudáveis; < 1,4 em risco CV muito alto (ESC 2019).
- HDL-C: H > 1,0; M > 1,3 mmol/L.
- Triglicerídeos: < 1,7 mmol/L; > 10 — risco de pancreatite.
- Não-HDL = CT − HDL-C; potente preditor de risco CV.
- ApoB — melhor marcador substituto de partículas aterogênicas, < 100 mg/dL em saudáveis.
- Lp(a) — hereditária, > 50 mg/dL (125 nmol/L) = risco aumentado.
6. Carboidratos e rins
- Glicemia de jejum: 3,3–5,5 mmol/L (plasma venoso).
- HbA1c: < 6,0 % (OMS); diagnóstico de DM ≥ 6,5 %; meta < 7,0 % na maioria dos pacientes com DM.
- Insulina de jejum: 2–25 µUI/mL; HOMA-IR = insulina × glicose / 22,5 < 2,7.
- Creatinina + idade + sexo → TFG (CKD-EPI 2021, sem fator de correção racial).
- DRC por TFG: G1 > 90, G2 60–89, G3a 45–59, G3b 30–44, G4 15–29, G5 < 15 (TRT).
- Relação albumina/creatinina urinária (RAC): A1 < 30; A2 30–300; A3 > 300 mg/g.
7. Eletrólitos e gasometria
| Parâmetro | Eutrofia | Crítico |
|---|---|---|
| Na⁺ | 135–145 mmol/L | < 120 ou > 160 |
| K⁺ | 3,5–5,0 mmol/L | < 2,5 ou > 6,5 |
| Cl⁻ | 98–107 mmol/L | — |
| Cálcio total | 2,15–2,55 mmol/L | > 3,5 (crise hipercalcêmica) |
| Cálcio iônico | 1,15–1,30 mmol/L | Mais preciso |
| Mg²⁺ | 0,7–1,05 mmol/L | ↓ tetania, arritmias |
| P (fosfato) | 0,8–1,45 mmol/L | DRC ↑ |
| pH | 7,35–7,45 | < 7,2 ou > 7,6 |
| PaCO₂ | 35–45 mmHg | > 60 hipercapnia |
| HCO₃⁻ | 22–26 mmol/L | — |
| PaO₂ | 75–100 mmHg | < 60 insuf. resp. |
| Lactato | < 2 mmol/L | > 4 — hipoperfusão grave |
8. Marcadores cardíacos
- Troponina I/T (altamente sensível hs-cTn): o 99º percentil geralmente é < 14–19 ng/L. Algoritmo diagnóstico de 0/1h e 0/3h (ESC 2023).
- Dinâmica: ↑ em 3–4 h, pico em 12–24 h, normalização em 7–10 dias.
- CK-MB: < 24 U/L; obsoleto, inferior à troponina.
- Mioglobina: elevação rápida (1–3 h), porém inespecífica.
- NT-proBNP: < 125 pg/mL (idade < 75); > 450 — investigação de IC em jovens, > 900 (até 75 anos), > 1800 (≥ 75 anos) — sugere IC aguda.
- D-dímero: < 500 ng/mL (regra ajustada pela idade = idade × 10 em > 50 anos).
9. Coagulograma
- Tempo de protrombina (TP): 11–15 s; RNI 0,8–1,2.
- TTPA (aPTT): 25–35 s.
- Fibrinogênio: 2–4 g/L; < 1 — risco de sangramento, > 4 — resposta de fase aguda.
- D-dímero: produto de degradação da fibrina; ↑ em TEV, CIVD, gravidez, sepse.
- Antitrombina III: 80–120 %; deficiência — trombofilia.
- Proteína C, S — deficiência — tromboses.
- Anti-Xa — monitoramento de HBPM (alvo 0,6–1,0 U/mL), inibidores diretos do Xa (condicional).
- Tromboelastografia (TEG/ROTEM) — avaliação dinâmica da coagulação.
10. Inflamação e imunologia
- PCR (CRP): < 5 mg/L; hs-CRP para RCV: < 1 baixo, 1–3 moderado, > 3 alto.
- Procalcitonina: < 0,1 ng/mL — sem infecção bacteriana; > 0,5 — provável; > 2 — choque sético provável.
- VHS: inespecífico, mas útil para monitorar doenças reumáticas.
- Ferritina: H 30–400; M 15–150 ng/mL. ↓ AFer; ↑ inflamação, hemocromatose, síndrome hemofagocítica.
- IL-6: < 7 pg/mL; ↑ sepse, COVID, artrite reumatoide.
- Imunoglobulinas: IgG 7–16, IgA 0,7–4, IgM 0,4–2,3 g/L.
11. Hormônios principais
- TSH: 0,4–4,0 mUI/L (em gestantes 0,1–2,5).
- T4 livre: 9–22 pmol/L.
- Cortisol matinal: 170–540 nmol/L.
- Prolactina: H 73–407; M fora da gestação 102–496 mUI/L.
- Aldosterona/renina: ARR > 30 — investigação de hiperaldosteronismo primário.
- PTH: 15–65 pg/mL.
- 25-(OH)-vitamina D: > 30 ng/mL (75 nmol/L) — normal.
- hCG: < 5 mUI/L fora da gestação; dobra a cada 48 h no 1º trimestre.
12. FAQ
Por que a troponina está elevada na TEP, miocardite, sepse?
A elevação da troponina é inespecífica para a SCA — é um marcador de necrose de cardiomiócitos de qualquer etiologia. É interpretada no contexto clínico e do ECG.
Como diferenciar anemia leve da normalidade considerando a idade?
Em idosos (> 65), Hb < 120 g/L (OMS) já é considerada anemia; a causa deve ser sempre investigada (perda sanguínea gastrointestinal, oncologia, DRC).
O que significa "valor de pânico" e o profissional do laboratório é obrigado a ligar?
Sim. A lista de valores críticos é regulamentada por protocolo do serviço clínico-diagnóstico; o laboratório liga para o solicitante em um prazo de 15–30 min.
Por que a creatinina não é ideal para a TFG?
Depende da massa muscular (em idosos, sarcopenia — subestima a redução real da TFG). A cistatina C é mais precisa.
Como diferenciar hemólise no tubo de coleta da verdadeira?
Hemólise in vitro: ↑ K⁺, DHL, AST — sem repercussão clínica. Hemólise verdadeira: ↓ haptoglobina, ↑ bilirrubina indireta, ↑ DHL, ↓ Hb, ↑ reticulócitos.
Veja também: Anemias · Infarto do miocárdio · DRC · Coagulopatias · Catálogo de propedêutica